Marcos Uchôa
13/11/2009
O repórter falou sobre o Paquistão visto com o olhar de um turista.
Moderador fala para a plateia: Marcos Uchôa e Sérgio Gilz visitaram o Paquistão e mostraram o país com o olhar de um turista. Os repórteres conversaram com os internautas e contaram mais sobre os bastidores da série.
Moderador apresenta a mensagem enviada por samuelsantos_campinas: Como é a hospitalidade do povo paquitanes? Já ouvi dizer que os indianos pedem até para tirar fotos com os estrangeiros, lá também acontece isso?
Sérgio Gilz responde para samuelsantos_campinas: O paquistanes é extremamente hospitaleiro. Os indianos são bem hospitaleiros.
Marcos Uchôa fala para a plateia: As pessoas eram de uma gentileza com a gente. Ofereciam comida e água o tempo todo, eles foram muito gentis. De uma maneira geral, o fato é que as pessoas são muito parecidas.
Moderador apresenta a mensagem enviada por josuegomes_bh: A estrutura no país é boa? Me refiro a hotéis, restaurantes, etc...
Sérgio Gilz responde para josuegomes_bh: Para o estrangeiro é muito boa. Em termos de hotéis, internet, acessos.
Marcos Uchôa fala para a plateia: O que acontece é que há ótimos hotéis, mas não existem médios hotéis. Os problemas que eles têm são com a eletricidade.
Moderador apresenta a mensagem enviada por Marcelo-SSA-BA: Uchôa, aqui no Brasil, vemos países como o Paquistão e adjascentes como países violentos e como se fossem terra de ninguém, é verdade ou esses países tem turismo como outro qualquer?
Marcos Uchôa responde para Marcelo-SSA-BA: Os números de turistas são baixíssimos. A gente tem muito a crescer ainda também.
Sérgio Gilz fala para a plateia: A imagem do Paquistão é que precisa ser trabalhada.
Moderador apresenta a mensagem enviada por Olavo_Campos: O que mais te chamou a atencao no paquistao?
Marcos Uchôa responde para Olavo_Campos: Para mim, a variedade. Eu não imaginei um país com deserto, montanhas. E a diversidade de cultura.
Sérgio Gilz fala para a plateia: A diversidade realmente é muito grande.
Moderador apresenta a mensagem enviada por Simone: Boa tarde Marcos. Sou jornalista, meu nome é Simone e moro em São José dos Campos. Qual foi seu maior desafio como repórter para a realização dessa reportagem?
Sérgio Gilz responde para Simone: Acho que a maior dificuldade foi o calor. O resto estamos acostumados, a gente faz com muita frequência.
Marcos Uchôa fala para a plateia: Havia também a questão da segurança. O governo nos deu uma segurança que às vezes até atrapalhava. Mas o calor, o Sérgio tem razão, é muito forte.
Moderador apresenta a mensagem enviada por Jhonatan: Jhonatan - Araraquara-SP: A população local tem vontade de dexar o país?
Marcos Uchôa responde para Jhonatan: Muito. Eu morei em Londres durante muito tempo. E há uma colônia paquistanesa grande em Londres, na Alemanha também e nos Estados Unidos.
Sérgio Gilz fala para a plateia: Mas eles querem sair, ganhar dinheiro e voltar. Todos têm vontade de voltar um dia.
Moderador apresenta a mensagem enviada por Adriano_Sobral: Gostaria de saber como os paquistaneses veem os brasileiros?
Marcos Uchôa responde para Adriano_Sobral: É um desconhecimento quase total.
Sérgio Gilz fala para a plateia: O futebol, que nos aproxima do mundo, eles não gostam. Eles gostam de críquete.
Moderador apresenta a mensagem enviada por cristina: Vocês passaram algum tipo de privação em relação aos costumes do país,algum tipo de proibição coisas do tipo? Cristina de Campina Grande
Sérgio Gilz responde para cristina: Se tem uma coisa que eu me proíbo é comer galinha. Porque lá no Paquistão era só frango (risos)!
Marcos Uchôa fala para a plateia: A gente queria ter feito alguma coisa sobre essa área nuclear. Mas é uma área sensível, a gente não poderia fazer. De maneira geral, tivemos um retrato bom do país.
Sérgio Gilz fala para a plateia: Um retrato perfeito!
Moderador apresenta a mensagem enviada por Edson: Edson - Curitiba As quetões de direito das mulheres?
Marcos Uchôa responde para Edson: Amanhã, a última matéria da série vai ser sobre a mulher no Paquistão. A mulher é muito mal tratada. A mídia hoje está tentando alertar para mudar esses costumes, mas são coisas de muitos séculos. A situação é muito complicada.
Moderador apresenta a mensagem enviada por Nieskier: Géssica- Pb: Qual foi a coisa mais extravagante que vc viu em suas viagens?
Sérgio Gilz responde para Nieskier: Eu sei de uma coisda curiosa! As camas feitas de cordas. E ficam ao ar livre.
Marcos Uchôa fala para a plateia: A gente inclusive poderia importar!
Moderador apresenta a mensagem enviada por alicecarneiroCURITIBA: Eu fiquei encantada com aquelas imagens! Se fosse para indicar um lugar do paquistão para visitar, qual você indicaria?
Marcos Uchôa responde para alicecarneiroCURITIBA: Como cidade, a mais bonita eu achei Lahore. E em questão de imagens o norte do país.
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Tuesday, 17 November 2009
Chat com Marcos Uchôa
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Friday, 21 August 2009
Diário de Viagem - Semana 4
Diário da Viagem ao Paquistão- Quarta e última Parte
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Bahawalpur – perto do vilarejo de Bela Khan (102 km)
O que eu iria encontrar pelo caminho a partir de agora era imprevisível. Desta vez eu não conhecia mais ninguém para me dar um teto ou um prato de comida e sabia que contar com a sorte que eu tive em Multan não era uma boa idéia. Apenas poderia me preparar para acampar em algum lugar pelo meio do caminho e levar comida para alguns dias comigo.
Pela manhã eu deixei Bahawalpur por uma estrada bastante diferente da que eu me acostumei a percorrer aqui no Paquistão, desta vez o caminho era ruim e com muitos buracos e defeitos. Pensei que o caminho seria assim até eu chegar ao meu destino, mas por sorte estava enganado. Depois de 10 quilômetros eu entrei novamente na autopista (National Highway n. 5) e voltei a pedalar da forma que estou acostumado.
Mais uma vez contei com a sorte e com a ajuda dos caminhões que pasavam ao meu lado e por vezes geravam o “vácuo” que eu precisava para escapar do vento e desenvolver uma velocidade boa. Com isso, consegui passar pelo caminho monótono e desértico mais rápido até um momento que acreditei estar na metade do caminho até a próxima cidade e resolvi parar para acampar num posto de gasolina do caminho.
Procurei um posto grande, 24 horas e com um segurança. Quando encontrei pedi para acampar no pequeno gramado no fundo do posto de gasolina, que ficava levemente afastado da estrada, por onde passavam os caminhões mais barulhentos que eu já vira. A princípio tive bastante sorte, o posto era bom, tinha um banheiro limpo e não fazia muito frio, o suficiente para eu não precisar tirar meu equipamento de frio da mala.
Depois de uma banho frio e comer no restaurante que ficava a poucos metros do posto de gasolina eu entrei em minha barraca e somente por volta das 9 horas da noite eu resolvi dormir. No entanto, descobri que mesmo estando numa região seca e desértica, a noite era fria e úmida. Fui obrigado a colocar a segunda capa da barraca e até mesmo a entrar no meu saco de dormir para completar a barulhenta noite.
Terça-feira (20 de novembro de 2007)
Perto do vilarejo de Bela Khan – Sadiqabad (104 km)
Acordei cedo, porém sabia que teria que esperar um bom tempo até a minha barraca secar. Da forma que ela estava eu não conseguiria guardá-la. Aproveitei o tempo para tomar um café da manhã e guardar tudo enquanto esperava a barraca secar. Nesse meio tempo, entre acordar e partir, eu vi uma caminhão carregado de óleo diesel chegar no posto e ter a válvula que controlava a saída do combustível estourarda. Isso resultou num banho de diesel em alguns homens que tentavam controlar o desastre e numa pequena piscina no chão do posto.
Após o show eu já estava coma barraca seca e pronto para guardá-la. Mais alguns bons minutos e pronto, tudo certo para ir embora. Subi na bicicleta e segui na direção de Sadiqabad, a próxima cidade de porte médio em meu caminho. Pensei que o caminho seria fácil com o dos dias anteriores, mas me enganei. O vento soprou contra mim hoje e os caminhões não foram tão amigos quanto os dos dias anteiros.
Meu início tardio resultou numa chegada igualmente tardia. O caminho foi monótono e igual ao dos outros dias, exceto pelo fato de hoje eu ter visto não apenas um caminhão tombado na pista, mas sim 3 e outros veículos batidos. Fora isso o caminho foi feito de deserto e poeira. Quando cheguei em Sadiqabad, queria apenas encontrar um hotel para passar a noite e ter um bom descanso.
Perguntei para um sujeito que falava inglês onde poderia encontrar um hotel e ele me indicou 2. Melhor do que isso, mandou um de seus funcionários me levar até o hotel mais próximo. Pelo caminho logo descobri que o funcionário além de não falar inglês (até aí tudo bem), não tinha a mínima idéia de onde ficava o hotel e também era completamente analfabeto (assim como boa parte da população do Paquistão). O resultado da ajuda do funcionário foi nulo, já que além de tudo ele me levou para um hotel que não aceitava estrangeiros.
Percebi que eu estaria melhor sozinho que acompanhado por aquele sujeito que parecia mais perdido do que eu. Segui então para o centro da cidade com a esperança de encontrar um lugar para passar a noite. Logo encontrei o que queria e este hotel sim aceitava estrageiros, provavelmente o único da cidade que fazia isso. Instalei-me alí e depois segui para um restaurante para comer e descansar para continuar minha jornada pelas estradas do Paquistão.
Quarta-feira (21 de novembro de 2007)
Sadiqabad – Ghotki (91 km)
Logo que acordei ao som de marteladas, serras, buzinas e jumentos debaixo da minha janela, localizada no centro de Sadiqabad, percebi que seria bom não perder muito tempo iniciar minhas atividades. Minha prioridade hoje era arrumar a roda da minha bicicleta que havia tido um raio quebrado ontem logo que entrei nesta cidade. Tomei um dos raios reservas que levo comigo, que por sinal já estão acabando e desci até uma espécie de sala de motores onde eu havia sido obrigado a colocar minha magrela.
Alí troquei o raio quebrado e descobri que havia mais alguns probremas na roda. Enfim, arrumar tudo e alinhar a roda me tomou mais de 30 minutos e só então eu podia ir tomar meu café da manhã. Não sei porque, mas eu já não aguento mais tomar o café da manhã daqui. Nada contra chapatis e vegetais apimentados, mas creio que meu corpo está pedindo algo mais com a cara do que eu comia no Brasil: um pão francês, queijos, yogurt e frutas.
Como eu sou obrigado a comer o que tiver para poder pedalar, eu saí para as ruas em busca de algo. O pão de estilo europeu e o queijo eu não encontrei, mas já sabia que não encontraria – ainda mais em Sadiqabad. O yogurt eu também não encontrei, mas poderia haver em algum canto da cidade. Por fim, encontrei frutas, que não existem numa variedade enorme como no Brasil, mas sempre tem uma cara boa. A frutas que sempre há por aqui são: banana, um tipo de mexerica, uma goiaba que tem forma de pêra (é verdade), maçãs e a favorita deles, romã, que não tem comparação com a pobre romã que eu via no Brasil. Aqui a romã tem quase um tamanho de um côco pequeno, tem uma cor viva e conta com sementes bastante suculentas.
Com o que eu enontrei, fiz meu café da manhã com frutas, incluindo uma romã, que de tão grande deu até trabalho para comer. Ao final da minha refeição e de arrumar tudo para seguir viagem já era próximo das 10 da manhã, mas eu tinha a vantagem de ter que pedalar menos de 100 quilômetros hoje. Pela pobreza das ruas desta cidade eu cheguei até a auto estrada e logo me deparei com o que seria o meu maior problema hoje: o vento contra (mim).
Nenhum momento da pedalada foi fácil e eu nem tinha idéia da onde iria chegar. Havia apenas visto um pequeno povoado chamado Ghotki no mapa e achei que seria uma boa ficar por alí hoje. Com minha velocidade comprometida devido ao vento que me segurava de forma incrível, segui de forma mais lenta e parei algumas vezes para descansar. Minha salvação foi entrar atrás de um lento caminhão que passava na estrada e seguir atrás dele, protegido do vento.
De toda a forma, minha pedalada nesta região árida do país foi mais demorada que o normal no dia de hoje. Cheguei em Ghotki próximo do final da tarde e percebi que o local era mesmo pequeno e não contava com estrutura alguma. Para a minha sorte, depois de pedalar um pouco pelo local eu encontrei um pequeno hotel na beira da estrada, já na saída da pequena cidade.
Não era um local exemplar, mas era suficiente para uma noite e para não precisar montar minha barraca. No final da tarde já fazia frio e eu tomei uma banho rápido para então cair na cama e me preparar para descansar e continuar minha pedalada até a cidade de Sukkur amanhã.
Quinta-feira (22 de novembro de 2007)
Ghotki – Sukkur (61 km)
Ao começar o dia de hoje eu percebi que já estava cansado de pedalar sem parar por tantos dias. Precisava de um descanso e esse descanso eu me daria em Sukkur minha próxima parada. Mesmo assim o descanso teria que ser curto, pois meu visto para o país estava acabando eu precisava chegar até Quetta para estendê-lo e ganhar mais alguns dias no país o que seria suficiente para terminar minha pedalada por aqui.
Depois de um café da manhã de frutas e um chapatti eu segui para a estrada, que passava na porta da hospedagem onde eu estava ficando. Alí percebi que não me falatava muito para chegar em Sukkur, quase 60 quilômetros e isso seria bom para mim, que já estava cansado. O ruim foi que o vento ainda seguia contra mim e não me dava nenhum descanso pelo caminho. Hoje eu já não tinha nem mais energia para acelerar e conseguir entrar no “vácuo”da traseira de uma caminhão. Contentei-me em seguir num ritmo mais lento, sabendo que não estava longe de meu objetivo.
Como havia saído cedo de Ghotki eu consegui chegar não muito tarde em Sukkur, onde demorei para encontrar um hotel, já que a cidade era dividida e contava com o lado pobre, de hotéis baratos, mas completamente insalúbres, e o lado menos pobre, de hotéis melhores, porém caros. Percebi que ficar no lado pobre seria um desafio e para descansar (a única coisa que eu queria) seria quase impossível. Segui então para o lado menos pobre, onde consegui negociar um preço melhor em uma das hospedagens e então ficar por alí por uma noite.
Comi bem hoje, descansei e planejei minha ida até as ruínas de Moenjo Daro, que ficava numa cidade próxima de Sukkur, aonde eu iria de ônibus amanhã.
Sexta-feira (23 de novembro de 2007)
Sukkur – Moenjo Daro – Sukkur (ônibus)
Hoje não coloquei o despertador para tocar e despertei um pouco mais tarde, mas ainda a tempo de seguir para Moenjo Daro e ver um pouco das ruínas dessa civilização de mais de 5000 anos. Logo pela manhã percebi que não seria fácil chegar lá. Do meu hotel tive que tomar um rickshaw até o terminal de ônibus, a cerca de 5 quilômetros de distância. Depois tomei um ônibus até a cidade de Larkana, base da família Bhutto e localizada a apenas 30 quilômetros de Moenjo Daro.
Quando cheguei em Larkana, depois de 1 hora e meia de viagem, tive que tomar outro pequeno táxi até o local da onde saiam os veículos para Moenjo Daro. O problema foi que no caminho o taxista encucou que eu tinha que ir até a polícia para obter um guarda-costas e depois segui para onde eu queria. Ele parou numa delegacia e os policiais deram risada da cara dele e o mandaram para outro lugar. No outro lugar o policial fez uma cara de “saco-cheio” e disse que eu poderia ir sozinho que a escolta policial seria me dada em Moenjo Daro.
Segui então para a van lotada, que levou 1 hora para percorrer os 30 quilômetros que separavam as duas cidades. Quando em Moenjo Daro, os policiais me chamaram para a sala deles, onde eu teria que preencher alguns papéis e pegar meu policial guarda-costas. Conversei com os policiais, que gostaram da minha barba muçulamana, e depois de alguns minutos eles me disseram que não havia problema com brasileiros e me deixaram seguir sem ninguém, para a minha alegria.
Conversando com as pessoas descobri que agora, que seria o pico da estação turística do país, eu havia sido o único turista da semana toda. Todos os estrageiros haviam fugido do país com medo de algum conflito e os que haviam planejado vir, mudaram de idéia após o Estado de Emergência declarado por Musharraf há pouco tempo. Em outras palavras, eu tinha as ruínas de Moenjo Daro quase que só para mim.
Não precisei de muito tempo para percorrer todo o local e depois de 3 horas alí já era hora de voltar para Sukkur, pois sabia que a viagem de volta também seria longa. Assim dei início ao retorno. Um rickshaw até o cruzamento das vans. Uma van até Larkana. Um rickshaw até o terminal de ônibus. Um ônibus até Sukkur. E um rickshaw até o hotel onde eu estava. Enfim, o passeio durou o dia todo, sendo que eu passei mais horas dentro dos desconfortáveis transportes que nas ruínas em si.
Agora eu tinha que deixar tudo pronto para segui na direção de Quetta amanhã ainda.
Sábado (24 de novembro de 2007)
Sukkur – Shikarpur (44 km)
Já me sentia bem para pedalar novamente e não levei muito tempo para deixar tudo pronto para seguir em frente. Como não queria perder muito tempo para me organizar, pedi um café da manhã do hotel. Esta simples refeição demorou mais que o normal e não foi nada de especial, mas o suficiente para me alimentar para uma boa pedalada.
Depois de comer eu já tinha tudo pornto para seguir em frente. Fui então para a estrada, onde tudo parecia normal. Em pouco mais de 1 hora de pedalada, comecei a sentir uma forte dor no estômago e não sabia o que era. Achei que poderia ser pelo café que eu havia tomado, mas na medida que a dor foi crescendo eu percebi que se fosse o café ele deveria estar estragado.
A dor foi se tornando tão intensa que eu já não conseguia pedalar. Fui obrigado a parar então na beira da pista, sentar no chão e apenas ficar parado, percebendo que eu tinha um grande problema agora. Quando levantei senti uma forte tontura e ânsia de vômito. Achei melhor vomitar aquilo que estava me fazendo mal e vomitei, mas não tanto quanto eu esperava e, aparentemente, longe do necesário também.
Subi na bicicleta mais uma vez e com a velocidade extremamente baixa eu segui em frente. Quando cheguei numa bifurcação não sinalizada eu resolvi parar no posto de gasolina e perguntar qual era o caminho para Jacobabad, onde eu queria chegar. Eles disseram que era o da direita. Perguntei então se eles tinham água, eles então perceberam que eu não estava bem e disseram que iriam me trazer água. Sentei então numa cadeira e esperei.
Quando a água chegou eu tomei boa parte da garrafa num gole só e depois deitei numa cama suja que eles havia trazido para mim. Acabei dormindo alí e quando levantei minha ânsia estava ainda mais forte, assim como as dores que eu sentia no estômago. Percebi que era hora de vomitar. Desta vez eu vomitei tudo ou quase tudo. Mas junto com o vômito, veio também uma diarréia. Nesse momento tive que admitir que eu não chegaria em Jacobabad hoje. Teria que ficar por Shikarpur e seguir viagem pela manhã.
Perguntei se havia algum hotel na cidade e eles disseram que sim, porém como turista, eu era obrigado a ser escoltado por policiais nesta cidade. Assim, eles ligaram para a polícia, que chegou em pouco tempo e me conduziu até a delegacia da pequena cidade. Na delegacia que parecia mais uma mercado de peixe, eu preenchi meus dados em algumas folhas e depois tive que esperar um policial chegar para me conduzir até o hotel, localizado a 50 metros da delegacia.
Devo confessar que aquilo não era nada agradável. Eu não podia ir para lugar algum sem o policial e eles eram chatos. O hotel era uma porcaria e sujo e os policiais ficavam a cada 5 minutos batendo em minha porta ou entrando em meu quarto. Um deles até arrombou a porta do meu quarto, para meu susto, pensando que um grito que ele havia escutado viera de dentro do quarto que eu estava. Bem, em resumo, a noite não foi fácil.
Eu que não tinha apetite algum, me contentei em comer algumas tangerinas e bananas, para então guardar minhas energias para conseguir deixar a cidade ainda amanhã.
Domingo (25 de novembro de 2007)
Shikarpur – Jacobabad (41 km) – Quetta
Às 6 da manhã os policiais já batiam à minha porta, o que me fez despertar nenhum um pouco feliz. Falei para eles pararem de bater na porta e que eu já iria começar a arrumar tudo para ir embora em pouco tempo. Depois de mais algumas dezenas de batidas na porta e de entrarem no quarto, eu estava com tudo pronto para seguir viagem.
Não me sentia muito bem, mas sabia que poderia pedalar um pouco. Mesmo assim, um veículo chegou até a porta do pulgueiro onde eu estava ficando e me obrigou a colocar a bicicleta na caçamba da caminhonete dele. Como não tinha escolha, coloquei. Ele então deu uma volta pela cidade e quando chegou na estrada, esperou um outro policial chegar e me levar escoltar até Jacobabad.
Este oputro policial estava de moto e me deixou pedalar. Assim, eu pedalei até Jacobabad, cerca de 40 quilômetros, o que não foi uma boa idéia, já que eu ainda não estava em condições de pedalar longas distâncias, devido à minha saúde. Quando chegamos em Jacobabad, os policiais disseram que me levariam até Quetta. Assim, eu pedalei até o limite onde eu poderia pedalar, a fronteira com o Balochistão. O motivo disso era simples, a 2 dias atrás foi morto um dos líderes e guerrilheiros da região, chamado Balach Khan Mari, parente de Nawab Akber Khan Bhugti, que foi morto no ano passado, pelas tropas do exército paquistanês. Isso resulou e resulta numa certa instabilidade na região que se opõe a Musharraf e se envolve em conflitos com os militares.
Da fronteira em diante, coloquei minha bicicleta na caçamba de uma caminhonete e segui em frente. Pensei que eles me levariam diretamente até Quetta, que estava a mais de 300 quilômetros dalí, mas percebi que não. A cada 10 quilômetros, eles faziam a troca, ou seja, eu tinha que pular de uma caminhonete para outra com minha bicicleta. Aquilo não era nada agradável, pois o tempo perdido em cada troca não era pequeno, sendo que em cada veículo havia 4 ou 5 policiais e nenhum deles me ajudava.
Depois de 7 caminhonetes e cerca de 50 quilômetros, eu percebi que aquilo era a coisa mais imbecil que eu já tinha visto. Apesar dos policiais não falarem inglês eu tentei me comunicar com eles para que eles me deixassem num ônibus direto para Quetta, o que seria menos doloroso que ficar trocando de veículo a cada 10 minutos e agüentando os policiais, o que talvez fosse o pior de tudo.
Eu já havia pedido isso antes, mas eles apenas havia me dito que me levariam até o terminal de ônibus, mas não levavam. Tive a impressão que eles gostavam de conduzir turistas pela estrada. Mas desta vez, estes policiais me levaram até o terminal de ônibus, que era no meio da estrada, no meio de uma cidade e no meio de um mercado de frutas, ou seja, algo completamente caótico. Os sujeitos do ônibus colocaram minhas malas e bicicleta no topo do veículo e quando eu entrei no ônibus percebi que não havia lugar para mim a não ser também no topo do ônibus.
Fui para cima e ganhei uma vista incrível enquanto viajava os 300 quilômetros que me separavam de Quetta. De cima do ônibus, eu pude ver o porque da polícia não deixar ninguém viajar sozinho pela região. O local é completamente deserto, para onde se olhe só se vê pedras e terra, nada mais. Até mesmo as cidades que me mapa mostrava, não era mais que um conjunto de casas feitas de barro. Percebi que mesmo sem os perigos dos terroristas, eu teria bastante trabalho para pedalar por alí.
A viagem durou cerca de 5 horas e somente do final do dia eu cheguei em Quetta, um pouco perdido nesta cidade fria, de pessoas bastante peculiares. Não há ninguém na rua que não use algum pano ou um tipo de chapéu diferente em sua cabeça. O motivo disso é simples, a população é simples e, basicamente, de origem tribal, como quase todo o Balochistão, região dividida entre o Paquistão, Afeganistão e Irã.
Fui então para o centro da cidade, onde para procurar um lugar para ficar dentro das noites frias de Quetta. Encontrar hotéis foi fácil, porém encontrar um para ficar foi mais difícil. Não sei porque, mas muitos deles estavam lotados (ou simplesmente disseram que estava lotados porque não queriam turistas e outros eram ruins de verdade, quase que indianos). Depois de diversas tentativas encontrei um lugar razoável para ficar, onde apenas coloquei minhas coisas e depois saí para comer.
Encontrei um restaurante bom e resolvi comer um peixe frito, o que parecia ser uma boa idéia. Comi bastante e logo percebi que era cedo demais para fazer uma refeição como essa, depois de todos os problemas que eu havia tido. Ao voltar para o hotel eu já não me sentia bem, mas o cansaço logo me levou para a cama e apenas adiou os efeitos desta pesada refeição.
Segunda-feira (26 de novembro de 2007)
Quetta
Ainda na cama, não demorei a descobrir que eu tinha sérios probelmas. Logo pela manhã eu já não conseguia mais sair do banheiro, numa disenteria complicada, que estava até me desidratando, de tanta água que eu estava perdendo. Pelos sintomas que eu estava tendo percebi que o que eu tinha era um parasita chamado Giardia lambia, geralmente chamada apenas de giardia. (eu tive isso, perdi 5 kilos em uma semana)
Estava arrotando bastante, sempre com gosto de “ovo”, sendo que eu não havia comido ovo, tinha uma disenteria forte e não tinha apetite. Enfim, tinha giardia. Agora precisava saber o que fazer para acabar com o problema. Já não queria perder meu tempo indo até um médico, pois o que ele iria me receitar eu já sabia. Resolvi apenas confirmar na internet, nuns sites de medicina e pronto, já tinha meu auto-diagnóstico e meu auto-medicamento. (também fiz isso hehehe)
Precisava tomar uma dose alta de tinidazol, a mesma droga que eu tomei contra a ameba, porém desta vez numa dose única e pesada, aparentemente suficiente para acabar com o meu problema. Comprei então o remédio, comprei yogurt e alguns probiótios para ajudar a recuperar a minha flora intestinal. Agora me restava descansar e não gastar energia. Fiquei vendo televisão e depois fui para a internet ver alguns e-mails, para resumir o meu dia.
Terça-feira (27 de novembro de 2007)
Quetta – direção à fronteira com o Irã
Acordei já me sentindo melhor. A diarréia havia acabado e já não me sentia tão fraco. Sentindo-me bem resolvi solucionar os probelmas que eu tinha com o meu visto, que iria acabar amanhã, assim para ficar mais no país eu teria que estendê-lo, porém para fazer isso eu teria primeiro que saber se eu poderia pedalar até a fronteira, o que eu teria que descobrir com a polícia.
Fui então até a delegacia da cidade e perguntei para o delegado se eu poderia pedalar até a fronteira. A resposta que ele me deu, eu já esperava: não. A polícia poderia me conduzir até fornteira se eu quisesse, fazendo dezenas de trocas de caminhonetes como eu havia feito antes, por isso, eles aconselhavam todos os viajantes a tomar um ônibus e evitar problemas.
Com essa resposta eu já não tinha muito o que pensar. Não havia mais razão para estender meu visto, sendo que eu já não poderia pedalar pelo país. Agora me restava arrumar tudo para deixar o país. Quando já tinha tudo pronto, resolvi então visitar uma fundação presente em Quetta, relacionada à saúde pública do Paquistão. A chamada Fundação Maulana Muhammadumar tinha uma papel importante na saúde de Quetta e de todo o Balochistão, já que a maioria da população desse estado segue para Quetta quando precisa de atendimento médico.
Após toda esta conversa, eu tinha pouco tempo para tomar meu ônibus até a cidade de Taftan, localizada na fronteira Paquistão/Irã. O ônibus sairia às 6 horas da tarde e levaria de 10 a 12 horas para chegar até o borda do país. Às 5:30 eu saí da minha hospedagem em direção terminal de ônibus e alí percebi o que me esperava. Por fora o ônibus parecia bom, mas por dentro não era muito confortável, especialmente para uma viagem de 12 horas, de qualquer forma, era o melhor que havia para lá.
A viagem começou e logo eu percebi qual seria a maior dificuldade, a estrada. A estrada era horrível, não contava com asfalto e estava impregnadas de pedras e buracos, o que fazia o ônibus trepidar bastante e o ato de dormir um desafio para qualquer passageiro. Mesmo assim, me esforcei para dormir e quando conseguia sempre havia algo para me acordar. O motorista acendendo as luzes do ônibus de brincadeira ou colocando a música mais alto que de costume, a polícia entrando no ônibus para me fazer descer e preencher papéis que não serviam de nada ou, simplesmente, todos descendo para comer e beber no meio do deserto.
Foi nessa viagem desconfortável, fria e insalubre que eu vi meus dias de Paquistão acabarem no meio desta noite e darem lugar para uma outra parte do mundo, o Oriente Médio. Mas esta já é outra história.
The End
=)
Espero que tenham gostado
Segunda-feira (19 de novembro de 2007)
Bahawalpur – perto do vilarejo de Bela Khan (102 km)
O que eu iria encontrar pelo caminho a partir de agora era imprevisível. Desta vez eu não conhecia mais ninguém para me dar um teto ou um prato de comida e sabia que contar com a sorte que eu tive em Multan não era uma boa idéia. Apenas poderia me preparar para acampar em algum lugar pelo meio do caminho e levar comida para alguns dias comigo.
Pela manhã eu deixei Bahawalpur por uma estrada bastante diferente da que eu me acostumei a percorrer aqui no Paquistão, desta vez o caminho era ruim e com muitos buracos e defeitos. Pensei que o caminho seria assim até eu chegar ao meu destino, mas por sorte estava enganado. Depois de 10 quilômetros eu entrei novamente na autopista (National Highway n. 5) e voltei a pedalar da forma que estou acostumado.
Mais uma vez contei com a sorte e com a ajuda dos caminhões que pasavam ao meu lado e por vezes geravam o “vácuo” que eu precisava para escapar do vento e desenvolver uma velocidade boa. Com isso, consegui passar pelo caminho monótono e desértico mais rápido até um momento que acreditei estar na metade do caminho até a próxima cidade e resolvi parar para acampar num posto de gasolina do caminho.
Procurei um posto grande, 24 horas e com um segurança. Quando encontrei pedi para acampar no pequeno gramado no fundo do posto de gasolina, que ficava levemente afastado da estrada, por onde passavam os caminhões mais barulhentos que eu já vira. A princípio tive bastante sorte, o posto era bom, tinha um banheiro limpo e não fazia muito frio, o suficiente para eu não precisar tirar meu equipamento de frio da mala.
Depois de uma banho frio e comer no restaurante que ficava a poucos metros do posto de gasolina eu entrei em minha barraca e somente por volta das 9 horas da noite eu resolvi dormir. No entanto, descobri que mesmo estando numa região seca e desértica, a noite era fria e úmida. Fui obrigado a colocar a segunda capa da barraca e até mesmo a entrar no meu saco de dormir para completar a barulhenta noite.
Terça-feira (20 de novembro de 2007)
Perto do vilarejo de Bela Khan – Sadiqabad (104 km)
Acordei cedo, porém sabia que teria que esperar um bom tempo até a minha barraca secar. Da forma que ela estava eu não conseguiria guardá-la. Aproveitei o tempo para tomar um café da manhã e guardar tudo enquanto esperava a barraca secar. Nesse meio tempo, entre acordar e partir, eu vi uma caminhão carregado de óleo diesel chegar no posto e ter a válvula que controlava a saída do combustível estourarda. Isso resultou num banho de diesel em alguns homens que tentavam controlar o desastre e numa pequena piscina no chão do posto.
Após o show eu já estava coma barraca seca e pronto para guardá-la. Mais alguns bons minutos e pronto, tudo certo para ir embora. Subi na bicicleta e segui na direção de Sadiqabad, a próxima cidade de porte médio em meu caminho. Pensei que o caminho seria fácil com o dos dias anteriores, mas me enganei. O vento soprou contra mim hoje e os caminhões não foram tão amigos quanto os dos dias anteiros.
Meu início tardio resultou numa chegada igualmente tardia. O caminho foi monótono e igual ao dos outros dias, exceto pelo fato de hoje eu ter visto não apenas um caminhão tombado na pista, mas sim 3 e outros veículos batidos. Fora isso o caminho foi feito de deserto e poeira. Quando cheguei em Sadiqabad, queria apenas encontrar um hotel para passar a noite e ter um bom descanso.
Perguntei para um sujeito que falava inglês onde poderia encontrar um hotel e ele me indicou 2. Melhor do que isso, mandou um de seus funcionários me levar até o hotel mais próximo. Pelo caminho logo descobri que o funcionário além de não falar inglês (até aí tudo bem), não tinha a mínima idéia de onde ficava o hotel e também era completamente analfabeto (assim como boa parte da população do Paquistão). O resultado da ajuda do funcionário foi nulo, já que além de tudo ele me levou para um hotel que não aceitava estrangeiros.
Percebi que eu estaria melhor sozinho que acompanhado por aquele sujeito que parecia mais perdido do que eu. Segui então para o centro da cidade com a esperança de encontrar um lugar para passar a noite. Logo encontrei o que queria e este hotel sim aceitava estrageiros, provavelmente o único da cidade que fazia isso. Instalei-me alí e depois segui para um restaurante para comer e descansar para continuar minha jornada pelas estradas do Paquistão.
Quarta-feira (21 de novembro de 2007)
Sadiqabad – Ghotki (91 km)
Logo que acordei ao som de marteladas, serras, buzinas e jumentos debaixo da minha janela, localizada no centro de Sadiqabad, percebi que seria bom não perder muito tempo iniciar minhas atividades. Minha prioridade hoje era arrumar a roda da minha bicicleta que havia tido um raio quebrado ontem logo que entrei nesta cidade. Tomei um dos raios reservas que levo comigo, que por sinal já estão acabando e desci até uma espécie de sala de motores onde eu havia sido obrigado a colocar minha magrela.
Alí troquei o raio quebrado e descobri que havia mais alguns probremas na roda. Enfim, arrumar tudo e alinhar a roda me tomou mais de 30 minutos e só então eu podia ir tomar meu café da manhã. Não sei porque, mas eu já não aguento mais tomar o café da manhã daqui. Nada contra chapatis e vegetais apimentados, mas creio que meu corpo está pedindo algo mais com a cara do que eu comia no Brasil: um pão francês, queijos, yogurt e frutas.
Como eu sou obrigado a comer o que tiver para poder pedalar, eu saí para as ruas em busca de algo. O pão de estilo europeu e o queijo eu não encontrei, mas já sabia que não encontraria – ainda mais em Sadiqabad. O yogurt eu também não encontrei, mas poderia haver em algum canto da cidade. Por fim, encontrei frutas, que não existem numa variedade enorme como no Brasil, mas sempre tem uma cara boa. A frutas que sempre há por aqui são: banana, um tipo de mexerica, uma goiaba que tem forma de pêra (é verdade), maçãs e a favorita deles, romã, que não tem comparação com a pobre romã que eu via no Brasil. Aqui a romã tem quase um tamanho de um côco pequeno, tem uma cor viva e conta com sementes bastante suculentas.
Com o que eu enontrei, fiz meu café da manhã com frutas, incluindo uma romã, que de tão grande deu até trabalho para comer. Ao final da minha refeição e de arrumar tudo para seguir viagem já era próximo das 10 da manhã, mas eu tinha a vantagem de ter que pedalar menos de 100 quilômetros hoje. Pela pobreza das ruas desta cidade eu cheguei até a auto estrada e logo me deparei com o que seria o meu maior problema hoje: o vento contra (mim).
Nenhum momento da pedalada foi fácil e eu nem tinha idéia da onde iria chegar. Havia apenas visto um pequeno povoado chamado Ghotki no mapa e achei que seria uma boa ficar por alí hoje. Com minha velocidade comprometida devido ao vento que me segurava de forma incrível, segui de forma mais lenta e parei algumas vezes para descansar. Minha salvação foi entrar atrás de um lento caminhão que passava na estrada e seguir atrás dele, protegido do vento.
De toda a forma, minha pedalada nesta região árida do país foi mais demorada que o normal no dia de hoje. Cheguei em Ghotki próximo do final da tarde e percebi que o local era mesmo pequeno e não contava com estrutura alguma. Para a minha sorte, depois de pedalar um pouco pelo local eu encontrei um pequeno hotel na beira da estrada, já na saída da pequena cidade.
Não era um local exemplar, mas era suficiente para uma noite e para não precisar montar minha barraca. No final da tarde já fazia frio e eu tomei uma banho rápido para então cair na cama e me preparar para descansar e continuar minha pedalada até a cidade de Sukkur amanhã.
Quinta-feira (22 de novembro de 2007)
Ghotki – Sukkur (61 km)
Ao começar o dia de hoje eu percebi que já estava cansado de pedalar sem parar por tantos dias. Precisava de um descanso e esse descanso eu me daria em Sukkur minha próxima parada. Mesmo assim o descanso teria que ser curto, pois meu visto para o país estava acabando eu precisava chegar até Quetta para estendê-lo e ganhar mais alguns dias no país o que seria suficiente para terminar minha pedalada por aqui.
Depois de um café da manhã de frutas e um chapatti eu segui para a estrada, que passava na porta da hospedagem onde eu estava ficando. Alí percebi que não me falatava muito para chegar em Sukkur, quase 60 quilômetros e isso seria bom para mim, que já estava cansado. O ruim foi que o vento ainda seguia contra mim e não me dava nenhum descanso pelo caminho. Hoje eu já não tinha nem mais energia para acelerar e conseguir entrar no “vácuo”da traseira de uma caminhão. Contentei-me em seguir num ritmo mais lento, sabendo que não estava longe de meu objetivo.
Como havia saído cedo de Ghotki eu consegui chegar não muito tarde em Sukkur, onde demorei para encontrar um hotel, já que a cidade era dividida e contava com o lado pobre, de hotéis baratos, mas completamente insalúbres, e o lado menos pobre, de hotéis melhores, porém caros. Percebi que ficar no lado pobre seria um desafio e para descansar (a única coisa que eu queria) seria quase impossível. Segui então para o lado menos pobre, onde consegui negociar um preço melhor em uma das hospedagens e então ficar por alí por uma noite.
Comi bem hoje, descansei e planejei minha ida até as ruínas de Moenjo Daro, que ficava numa cidade próxima de Sukkur, aonde eu iria de ônibus amanhã.
Sexta-feira (23 de novembro de 2007)
Sukkur – Moenjo Daro – Sukkur (ônibus)
Hoje não coloquei o despertador para tocar e despertei um pouco mais tarde, mas ainda a tempo de seguir para Moenjo Daro e ver um pouco das ruínas dessa civilização de mais de 5000 anos. Logo pela manhã percebi que não seria fácil chegar lá. Do meu hotel tive que tomar um rickshaw até o terminal de ônibus, a cerca de 5 quilômetros de distância. Depois tomei um ônibus até a cidade de Larkana, base da família Bhutto e localizada a apenas 30 quilômetros de Moenjo Daro.
Quando cheguei em Larkana, depois de 1 hora e meia de viagem, tive que tomar outro pequeno táxi até o local da onde saiam os veículos para Moenjo Daro. O problema foi que no caminho o taxista encucou que eu tinha que ir até a polícia para obter um guarda-costas e depois segui para onde eu queria. Ele parou numa delegacia e os policiais deram risada da cara dele e o mandaram para outro lugar. No outro lugar o policial fez uma cara de “saco-cheio” e disse que eu poderia ir sozinho que a escolta policial seria me dada em Moenjo Daro.
Segui então para a van lotada, que levou 1 hora para percorrer os 30 quilômetros que separavam as duas cidades. Quando em Moenjo Daro, os policiais me chamaram para a sala deles, onde eu teria que preencher alguns papéis e pegar meu policial guarda-costas. Conversei com os policiais, que gostaram da minha barba muçulamana, e depois de alguns minutos eles me disseram que não havia problema com brasileiros e me deixaram seguir sem ninguém, para a minha alegria.
Conversando com as pessoas descobri que agora, que seria o pico da estação turística do país, eu havia sido o único turista da semana toda. Todos os estrageiros haviam fugido do país com medo de algum conflito e os que haviam planejado vir, mudaram de idéia após o Estado de Emergência declarado por Musharraf há pouco tempo. Em outras palavras, eu tinha as ruínas de Moenjo Daro quase que só para mim.
Não precisei de muito tempo para percorrer todo o local e depois de 3 horas alí já era hora de voltar para Sukkur, pois sabia que a viagem de volta também seria longa. Assim dei início ao retorno. Um rickshaw até o cruzamento das vans. Uma van até Larkana. Um rickshaw até o terminal de ônibus. Um ônibus até Sukkur. E um rickshaw até o hotel onde eu estava. Enfim, o passeio durou o dia todo, sendo que eu passei mais horas dentro dos desconfortáveis transportes que nas ruínas em si.
Agora eu tinha que deixar tudo pronto para segui na direção de Quetta amanhã ainda.
Sábado (24 de novembro de 2007)
Sukkur – Shikarpur (44 km)
Já me sentia bem para pedalar novamente e não levei muito tempo para deixar tudo pronto para seguir em frente. Como não queria perder muito tempo para me organizar, pedi um café da manhã do hotel. Esta simples refeição demorou mais que o normal e não foi nada de especial, mas o suficiente para me alimentar para uma boa pedalada.
Depois de comer eu já tinha tudo pornto para seguir em frente. Fui então para a estrada, onde tudo parecia normal. Em pouco mais de 1 hora de pedalada, comecei a sentir uma forte dor no estômago e não sabia o que era. Achei que poderia ser pelo café que eu havia tomado, mas na medida que a dor foi crescendo eu percebi que se fosse o café ele deveria estar estragado.
A dor foi se tornando tão intensa que eu já não conseguia pedalar. Fui obrigado a parar então na beira da pista, sentar no chão e apenas ficar parado, percebendo que eu tinha um grande problema agora. Quando levantei senti uma forte tontura e ânsia de vômito. Achei melhor vomitar aquilo que estava me fazendo mal e vomitei, mas não tanto quanto eu esperava e, aparentemente, longe do necesário também.
Subi na bicicleta mais uma vez e com a velocidade extremamente baixa eu segui em frente. Quando cheguei numa bifurcação não sinalizada eu resolvi parar no posto de gasolina e perguntar qual era o caminho para Jacobabad, onde eu queria chegar. Eles disseram que era o da direita. Perguntei então se eles tinham água, eles então perceberam que eu não estava bem e disseram que iriam me trazer água. Sentei então numa cadeira e esperei.
Quando a água chegou eu tomei boa parte da garrafa num gole só e depois deitei numa cama suja que eles havia trazido para mim. Acabei dormindo alí e quando levantei minha ânsia estava ainda mais forte, assim como as dores que eu sentia no estômago. Percebi que era hora de vomitar. Desta vez eu vomitei tudo ou quase tudo. Mas junto com o vômito, veio também uma diarréia. Nesse momento tive que admitir que eu não chegaria em Jacobabad hoje. Teria que ficar por Shikarpur e seguir viagem pela manhã.
Perguntei se havia algum hotel na cidade e eles disseram que sim, porém como turista, eu era obrigado a ser escoltado por policiais nesta cidade. Assim, eles ligaram para a polícia, que chegou em pouco tempo e me conduziu até a delegacia da pequena cidade. Na delegacia que parecia mais uma mercado de peixe, eu preenchi meus dados em algumas folhas e depois tive que esperar um policial chegar para me conduzir até o hotel, localizado a 50 metros da delegacia.
Devo confessar que aquilo não era nada agradável. Eu não podia ir para lugar algum sem o policial e eles eram chatos. O hotel era uma porcaria e sujo e os policiais ficavam a cada 5 minutos batendo em minha porta ou entrando em meu quarto. Um deles até arrombou a porta do meu quarto, para meu susto, pensando que um grito que ele havia escutado viera de dentro do quarto que eu estava. Bem, em resumo, a noite não foi fácil.
Eu que não tinha apetite algum, me contentei em comer algumas tangerinas e bananas, para então guardar minhas energias para conseguir deixar a cidade ainda amanhã.
Domingo (25 de novembro de 2007)
Shikarpur – Jacobabad (41 km) – Quetta
Às 6 da manhã os policiais já batiam à minha porta, o que me fez despertar nenhum um pouco feliz. Falei para eles pararem de bater na porta e que eu já iria começar a arrumar tudo para ir embora em pouco tempo. Depois de mais algumas dezenas de batidas na porta e de entrarem no quarto, eu estava com tudo pronto para seguir viagem.
Não me sentia muito bem, mas sabia que poderia pedalar um pouco. Mesmo assim, um veículo chegou até a porta do pulgueiro onde eu estava ficando e me obrigou a colocar a bicicleta na caçamba da caminhonete dele. Como não tinha escolha, coloquei. Ele então deu uma volta pela cidade e quando chegou na estrada, esperou um outro policial chegar e me levar escoltar até Jacobabad.
Este oputro policial estava de moto e me deixou pedalar. Assim, eu pedalei até Jacobabad, cerca de 40 quilômetros, o que não foi uma boa idéia, já que eu ainda não estava em condições de pedalar longas distâncias, devido à minha saúde. Quando chegamos em Jacobabad, os policiais disseram que me levariam até Quetta. Assim, eu pedalei até o limite onde eu poderia pedalar, a fronteira com o Balochistão. O motivo disso era simples, a 2 dias atrás foi morto um dos líderes e guerrilheiros da região, chamado Balach Khan Mari, parente de Nawab Akber Khan Bhugti, que foi morto no ano passado, pelas tropas do exército paquistanês. Isso resulou e resulta numa certa instabilidade na região que se opõe a Musharraf e se envolve em conflitos com os militares.
Da fronteira em diante, coloquei minha bicicleta na caçamba de uma caminhonete e segui em frente. Pensei que eles me levariam diretamente até Quetta, que estava a mais de 300 quilômetros dalí, mas percebi que não. A cada 10 quilômetros, eles faziam a troca, ou seja, eu tinha que pular de uma caminhonete para outra com minha bicicleta. Aquilo não era nada agradável, pois o tempo perdido em cada troca não era pequeno, sendo que em cada veículo havia 4 ou 5 policiais e nenhum deles me ajudava.
Depois de 7 caminhonetes e cerca de 50 quilômetros, eu percebi que aquilo era a coisa mais imbecil que eu já tinha visto. Apesar dos policiais não falarem inglês eu tentei me comunicar com eles para que eles me deixassem num ônibus direto para Quetta, o que seria menos doloroso que ficar trocando de veículo a cada 10 minutos e agüentando os policiais, o que talvez fosse o pior de tudo.
Eu já havia pedido isso antes, mas eles apenas havia me dito que me levariam até o terminal de ônibus, mas não levavam. Tive a impressão que eles gostavam de conduzir turistas pela estrada. Mas desta vez, estes policiais me levaram até o terminal de ônibus, que era no meio da estrada, no meio de uma cidade e no meio de um mercado de frutas, ou seja, algo completamente caótico. Os sujeitos do ônibus colocaram minhas malas e bicicleta no topo do veículo e quando eu entrei no ônibus percebi que não havia lugar para mim a não ser também no topo do ônibus.
Fui para cima e ganhei uma vista incrível enquanto viajava os 300 quilômetros que me separavam de Quetta. De cima do ônibus, eu pude ver o porque da polícia não deixar ninguém viajar sozinho pela região. O local é completamente deserto, para onde se olhe só se vê pedras e terra, nada mais. Até mesmo as cidades que me mapa mostrava, não era mais que um conjunto de casas feitas de barro. Percebi que mesmo sem os perigos dos terroristas, eu teria bastante trabalho para pedalar por alí.
A viagem durou cerca de 5 horas e somente do final do dia eu cheguei em Quetta, um pouco perdido nesta cidade fria, de pessoas bastante peculiares. Não há ninguém na rua que não use algum pano ou um tipo de chapéu diferente em sua cabeça. O motivo disso é simples, a população é simples e, basicamente, de origem tribal, como quase todo o Balochistão, região dividida entre o Paquistão, Afeganistão e Irã.
Fui então para o centro da cidade, onde para procurar um lugar para ficar dentro das noites frias de Quetta. Encontrar hotéis foi fácil, porém encontrar um para ficar foi mais difícil. Não sei porque, mas muitos deles estavam lotados (ou simplesmente disseram que estava lotados porque não queriam turistas e outros eram ruins de verdade, quase que indianos). Depois de diversas tentativas encontrei um lugar razoável para ficar, onde apenas coloquei minhas coisas e depois saí para comer.
Encontrei um restaurante bom e resolvi comer um peixe frito, o que parecia ser uma boa idéia. Comi bastante e logo percebi que era cedo demais para fazer uma refeição como essa, depois de todos os problemas que eu havia tido. Ao voltar para o hotel eu já não me sentia bem, mas o cansaço logo me levou para a cama e apenas adiou os efeitos desta pesada refeição.
Segunda-feira (26 de novembro de 2007)
Quetta
Ainda na cama, não demorei a descobrir que eu tinha sérios probelmas. Logo pela manhã eu já não conseguia mais sair do banheiro, numa disenteria complicada, que estava até me desidratando, de tanta água que eu estava perdendo. Pelos sintomas que eu estava tendo percebi que o que eu tinha era um parasita chamado Giardia lambia, geralmente chamada apenas de giardia. (eu tive isso, perdi 5 kilos em uma semana)
Estava arrotando bastante, sempre com gosto de “ovo”, sendo que eu não havia comido ovo, tinha uma disenteria forte e não tinha apetite. Enfim, tinha giardia. Agora precisava saber o que fazer para acabar com o problema. Já não queria perder meu tempo indo até um médico, pois o que ele iria me receitar eu já sabia. Resolvi apenas confirmar na internet, nuns sites de medicina e pronto, já tinha meu auto-diagnóstico e meu auto-medicamento. (também fiz isso hehehe)
Precisava tomar uma dose alta de tinidazol, a mesma droga que eu tomei contra a ameba, porém desta vez numa dose única e pesada, aparentemente suficiente para acabar com o meu problema. Comprei então o remédio, comprei yogurt e alguns probiótios para ajudar a recuperar a minha flora intestinal. Agora me restava descansar e não gastar energia. Fiquei vendo televisão e depois fui para a internet ver alguns e-mails, para resumir o meu dia.
Terça-feira (27 de novembro de 2007)
Quetta – direção à fronteira com o Irã
Acordei já me sentindo melhor. A diarréia havia acabado e já não me sentia tão fraco. Sentindo-me bem resolvi solucionar os probelmas que eu tinha com o meu visto, que iria acabar amanhã, assim para ficar mais no país eu teria que estendê-lo, porém para fazer isso eu teria primeiro que saber se eu poderia pedalar até a fronteira, o que eu teria que descobrir com a polícia.
Fui então até a delegacia da cidade e perguntei para o delegado se eu poderia pedalar até a fronteira. A resposta que ele me deu, eu já esperava: não. A polícia poderia me conduzir até fornteira se eu quisesse, fazendo dezenas de trocas de caminhonetes como eu havia feito antes, por isso, eles aconselhavam todos os viajantes a tomar um ônibus e evitar problemas.
Com essa resposta eu já não tinha muito o que pensar. Não havia mais razão para estender meu visto, sendo que eu já não poderia pedalar pelo país. Agora me restava arrumar tudo para deixar o país. Quando já tinha tudo pronto, resolvi então visitar uma fundação presente em Quetta, relacionada à saúde pública do Paquistão. A chamada Fundação Maulana Muhammadumar tinha uma papel importante na saúde de Quetta e de todo o Balochistão, já que a maioria da população desse estado segue para Quetta quando precisa de atendimento médico.
Após toda esta conversa, eu tinha pouco tempo para tomar meu ônibus até a cidade de Taftan, localizada na fronteira Paquistão/Irã. O ônibus sairia às 6 horas da tarde e levaria de 10 a 12 horas para chegar até o borda do país. Às 5:30 eu saí da minha hospedagem em direção terminal de ônibus e alí percebi o que me esperava. Por fora o ônibus parecia bom, mas por dentro não era muito confortável, especialmente para uma viagem de 12 horas, de qualquer forma, era o melhor que havia para lá.
A viagem começou e logo eu percebi qual seria a maior dificuldade, a estrada. A estrada era horrível, não contava com asfalto e estava impregnadas de pedras e buracos, o que fazia o ônibus trepidar bastante e o ato de dormir um desafio para qualquer passageiro. Mesmo assim, me esforcei para dormir e quando conseguia sempre havia algo para me acordar. O motorista acendendo as luzes do ônibus de brincadeira ou colocando a música mais alto que de costume, a polícia entrando no ônibus para me fazer descer e preencher papéis que não serviam de nada ou, simplesmente, todos descendo para comer e beber no meio do deserto.
Foi nessa viagem desconfortável, fria e insalubre que eu vi meus dias de Paquistão acabarem no meio desta noite e darem lugar para uma outra parte do mundo, o Oriente Médio. Mas esta já é outra história.
The End
=)
Espero que tenham gostado
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Thursday, 20 August 2009
Diário de Viagem - Semana 2
Por isso que eu amo o Pak!!!!!!!
Essa série está tudo de bom, que nem pude esperar pra postar a segunda parte.
Eu tinha colocado o link do site, mas deu erro em tudo aqui.. aff, no último post eu coloco oks?
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Segunda-feira (5 de novembro de 2007)
Gilgit – Karimabad (3 horas)
A noite havia sido fria. Fria como havia tempo que eu não via. Apesar do frio, os dias estavam espetaculares neste começo de outono, quando o clima ainda está bastante seco e o céu completamente azul. Dei uma volta pela cidade logo pela manhã, em busca de do centro de informação e de descobrir o preço da passagem aérea de volta, já que eu não estava nem um pouco interessado em tomar aquele ônibus mais uma vez.
O centro de informação parecia que não iria abrir tão cedo nesta segunda-feira, a companhia aérea cobrava uma valor mais caro do que eu esperava e a úncia coisa boa desta minha caminhada foi que eu encontrei a roupa paquistanesa que eu queria numa loja de roupas usadas e o melhor, por uma camisa e calça que eu queria, paguei apenas cerca de 7 Reais.
Depois disso eu voltei para a minha hospedagem, arrumei minhas coisas e parti para o ponto de ônibus, para tomar um veículo rumo à turística cidade de Karimabad, localizada no coração do Vale do Hunza (a melhor tradução que eu encontrei para Hunza Valley). A van comportava 18 pessoas e não sairia da estação enquanto não estivesse completa. Esperei cerca de 30 minutos até que o veículo estivesse lotado e então, espremido num dos bancos do veículo, segui para o norte.
A viagem foi muito melhor que a de ontem. Desta vez a estrada estava em bom estado – ela só não estava no trecho anterior porque ela foi devastada pelo terremoto de 2004, que também matou centenas de pessoas – e a viagem foi mais agradável, especialmente pelo fato de ter durado apenas 3 horas. No início da tarde eu já estava em Karimabad, numa hospedagem simples, barata e acolhedora, onde encontrei mais alguns viajantes.
Alí eu via a beleza da região em sua melhor forma. Algumas das montanhas mais altas do mundo, picos nevados, vales e geleiras, além de uma gente altamente hospitaleira e simpática, as quais levam a vida de uma forma serena e pacata, sendo muçulmanos, mas sem as paranóias que o islamismo por vezes cultiva. Senti-me em casa logo nos primeiros instantes no local.
Ao final do dia, após um pôr-do-sol de tirar o fôlego, todos os hóspedes do hotel jantaram juntos e conversaram durante horas, até o sono chegar.
Terça-feira (6 de novembro de 2007)
Karimabad e arredores
Acordei cedo, junto com o sol na realidade. Queria ver o sol dar início ao dia iluminando primeiro o topo das montanhas que cercavam o vale. Relutando um pouco devido ao frio, eu coloquei diversas camadas de roupa e subi até o terraço da casa onde estava. O frio estava forte e as pequenas poças d’água pelo chão estavam congeladas. Apesar disso, a vista compensou o esforço: um céu sem nuvens e os raios de sol, quase que visíveis, chegavam apenas nos altos picos das montanhas com seus 8 e 7 mil metros.
Na medida que o sol iluminava de dourado cada um desses picos a neve derretia e pequenas núvens se formavam ao redor dos cumes. Fora eu e o o Ji (o dono da hospedagem, que sempre falava “ji” no final de cada frase, assim passei a chamá-lo de Ji), todos na hospedagem estavam dormindo, mas aos poucos começaram a acordar, na medida que o sol chegava e esquentava o ambiente.
Tomei um simples café da manhã e fui para o Baltiti Forte, como é conhecido este forte de mais de 800 anos que fica no alto de uma montanha, com picos de 7 mil metros ao seus fundo. Ao caminhar pelas ruas da cidade, passei pelo campo de polo, já desativado, pois não há mais cavalos na cidade, cruzei com alguns yaks (espécie de búfalos presente nas regiões mais altas) e cheguei ao forte.
Não havia quase ninguém na cidade e ninguém no forte, que ainda estava fechado e já eram 9 da manhã. A vida nas montanhas era mesmo diferente. Encontrei um guarda e ele disse que o forte logo abriria as suas portas. Enquanto esperava, observei algumas família começarem o seu dia. A população desta parte do país não carrega a fisionomia do sul asiático, mas sim do centro deste continente, de países que um dia já foram parte da URSS, como Kazaquistão, Tajiquistão e Usbequistão (os vizinhos mais próximos desta região).
Mais que a diferente fisionomia, o comportamento das pessoas também é bastante diferente. Uma grande hospitalidade e uma enorme simpatia faz parte dessas pessoas. Depois de esquecer do tempo vendo a vida daquelas pessoas, o guarda do forte veio me avisar que o local já havia aberto suas portas e que eu poderia entrar.
No valor do ticket de entrada, que não era barato para o Paquistão, estava incluso um guia e boa parte daquele dinheiro iria para ajudar na restauração do local. Logo apareceu o guia e me mostrou todo o local, que para a residência de uma “família real” não era assim tão grande e mais rústico que o normal. O prédio como um todo era marcado por linhas e formas tibetanas, já que na época que foi construído a região estava mais influenciado por esse povo, incusive tendo o budismo como religião.
No subsolo do prédio de 3 andares, estava um pequeno calabouço para os desertores, que ficavam detidos alí por pouco tempo antes de serem tranferidos para o que é o hoje a fronteira entre China e Paquistão, onde eram apenas largados por lá. Alguns morriam, outros ficavam por lá e outros ainda conseguiam voltar, depois de anos, para o Vale do Hunza.
No andar intermediário, ficava a cozinha, ainda negra pela fumaça, com panelas de pedra e algumas de metal – trazidas da China –, também havia o armazém de frutas secas, que ficavam estocadas para o inverno. Somente no 3º andar havia outras influências que não tibetanas, no caso especialmente da Kashemira. Neste andar estavam os cômodos da família real, um para o verão e outro para o inverno, este com mais tapetes e cobertores, além da sala de instrumentos musicais, onde ocorriam as celebrações. Por fim, havia o terraço, com vista para o vale e para as montanhas, com uma decoração sem muitos detalhes.
Após a visita ao forte, eu já estava próximo das montanhas e de uma gelereira, resolvi então caminhar até lá, apesar de saber que não seria uma caminhada fácil. Comecei cruzando o vale e já subindo uma ingreme elevação repleta de pedras e areia o que foi a primeira dificuldade para os meus tênis de sola completamente lisa. Depois tive que cruzar um pequeno rio caminhando sobre pedras soltas. Até aí tudo bem, mas depois havia pedras gigantes em meu caminho e passagens realmente difícies. Ao chegar na metade, tive que admitir que não seria mais possível, assim voltei para o pequeno vilarejo, já com algumas bolhas nos pés e cortes nas mãos.
No vale eu almocei e depois fui até o Rio Hunza, justamente na base do vale. Além do fato de estar na base do vale, alí eu podia ver algumas formações rochosas curiosas e pontes frágeis sobre o rio. Após o passeio eu tinha que voltar e não queria subir caminhando até o vilarejo, assim eu usei a técnica que as pessoas nativas usam: corri atrás de uma van, saltei e agarrei num suporte metálico que há na traseira do veículo. Agarrado alí eu subi a montanha e quando era hora de descer eu apenas saltei do veículo e caminhei por mais alguns metros até minha hospedagem, para então ver o sol se pôr, jantar e me preparar para mais uma noite fria.
Quarta-feiram (7 de novembro de 2007)
Karimabad – Passu – Gilgit
Acordei com uma dúvida: voltaria para Gilgit para depois seguir para Islamabad ou seguiria mais ao norte, perto da fronteira com a China, na bela cidade de Passu. Todos os que estava na hospedagem haviam ido embora e eu ainda tinha essa dúvida em minha cabeça. Fui para cidade para comprar um mapa que eu queria, mas descobri que o o comércio abriria suas portas somente depois das 11 da manhã, como de costume.
Assim, resolvi sair da cidade sem meu mapa mesmo, agora com um destino certo, mais ao norte. Pulei então em outro carro, agarrei na barra de ferro e segui até a próxima cidade, 5 quilômetros dalí, Aliabad. Em Aliabad ainda pensava se valeria mesmo a pena seguir para Passu, mas resolvi não pensar muito e apenas entrar na van lotada de gente e segui até lá.
O motorista estava correndo bem e a viagem foi mais rápida do que eu esperava, os problemas, entretanto, começaram quando eu cheguei ao local. A aldeia parecia uma cidade fantasma. Não havia ninguém por alí, havia placas de hoteis, mas todos eles estavam fechados, assim como as 5 vendas do vilarejo. Bati na porta dos hoteis e ninguém apareceu, busquei entrar alguém pelas ruas e nada. Depois de algum tempo encontrei um bando de crianças jogando cricket, mas infelizmente nenhuma delas falava inglês.
Não sabia mais o que fazer. Um sujeito então parou seu carro na beira da estrada, perto da onde eu estava e eu fui falar com ele. Não tive boas notícias, parecia que hoje era algum dia especial no local (ou fora do local) e diversos do moradores dalí haviam ido para outra cidade. Talvez eles voltassem pela noite, mas ainda era incerto. O pior mesmo era que não havia mais nenhum tipo de transporte para eu voltar agora. Sem comida, sem local para ficar, eu sabia que estava com problemas e quando o sol fosse embora eu poderia congelar alí.
Voltei para a estrada e no mesmo instante eu vi um carro passando, estendi a mão e pedi uma carona. No mesmo instante o carro parou e me convidou para entrar. Os 2 sujeitos dos bancos dianteiros pareciam simpáticos, no entanto não falavam uma palavra em inglês e eu quase nada de urdu. A comunicação estava prózima de zero, mas o suficiente para eu conseguir explicar que eu queria sair dalí. Inicialmente falei de Aliabad, mas eles disseram que estava indo para Gilgit, aonde eu queria chegar. Segui com eles até Gilgit, da onde eu iria tomar um avião para Islamabad amanhã.
Quando cheguei na cidade, por volta das 5:30 da tarde, tinha dúvidas se encontraria o escritório da companhia aérea ainda aberto. Todas instituições fecham antes das 4 por aqui. Corri então para o escritório da PIA (nome da companhia aérea) e como eu já esperava eles estavam fechados. Não desisti, nunca desisto tão cedo. Bati na porta e ninguém. Bati na porta novamente e apareceu alguém. Falei com o senhor e ele disse para eu voltar amanhã, pois hoje eles já estavam fechados. Tentei falar com ele e ele, que já estava sem paciência, chamou outro funcionário.
Ao falar com este outro funcionário disse que tinha uma reserva e ele abriu a porta para mim. Agora poderia comprar meu ticket sem problemas. O problema foi que ao comprar meu ticket de avião, me sobraram quase 300 Rúpias (menos de 10 Reais) e eu ainda tinha que dormir e comer com esse dinheiro. Voltei então para a hospedagem onde eu estava ficando e pedi o quarto mais barato, 150 Rúpias, e uma prato de comida barato e que me sustentasse, mais 100 Rúpias.
Tinha ainda mais 40 Rúpias, o que não daria para muita coisa, mas pelo manos eu chegaria até Islamabad, onde poderia encontrar um caixa eletrônico para sacar mais dinheiro. Agora, não me restava muito a fazer, senão dormir e esperar.
Quinta-feira (8 de novembro de 2007)
Gilgit – Islamabad
Acordei cedo, tomei um banho quente, não tomei um café da manhã hoje, pois não tinha dinheiro e apenas esperei chegar a hora de seguir para o aeroporto. Paguei o hotel e eles me ajudaram dando um desconto de 100 Rúpias, na minha conta, dizendo que eu iria precisar desse dinehiro quando eu chegasse em Islamabad. Aceitei o desconto e fui embora para o aeroporto.
Caminhei até o aeroporto que tinha sua única pista quase que no centro da cidade. No entanto, havia chegado cedo demais e tive que esperar na rua, já que eles não tem sala de espera. Quando chegou o momento de entrar fui revistado algumas vezes e depois cheguei a uma pequena sala destinada apenas aos passageiros. Esperei por mais uma hora até abrirem a porta para os passageiros caminharem até a pista e entrarem no único avião do local.
Eu tinha 2 motivos para estar tomando uma avião. O primeiro era a vista que eu ganharia do avião, que poderia mostrar diversas das altas montanhas da região, incluindo o Nanga Parbat, com seus 8.125 metros, o segundo motivo era que eu não queria realizar mais uma vez a viagem insalubre de 17 horas entre Gilgit e Islamabad. Por isso, pedi um assento na janela do lado esquerdo do avião ao embarcar. Fui atentido, podem me deram o pior assento, justo debaixo da asa.
Ao avião decolou e na medida do possível eu consegui ter uma boa visão das montanhas mais altas do mundo. A incrível paisagem permaneceu durante toda a curta viagem de 55 minutos. Aterrissar no aeroporto de Islamabad, o qual é usado para vôos domesticos, internacionais e militares, foi tranqüilo, o problema foi que os caixa-eletrônicos do aeroporto estava quebrados e eu continuava sem dinheiro.
Resolvi pedir uma carona para Islamabad, que estava a alguns quilômetros dalí. Ninguém me deu uma carona, mas um sujeito me deu 100 Rúpias. Agora já tinha 200 Rúpias de esmola e poderia tomar um táxi. Pedi para o táxi seguir para um banco, ele conhecia bem a cidade, mas o que eu não sabia é que quase nenhum banco era compatível ao sistema internacional que eu uso para sacar dinheiro, Cirrus. (eu tb usava esse.. mto ruim de achar, somente o Banco Samba aceita, hauhauahua conhecidencia?)
Depois de uma longa jornada e diversos caixas-eletrônicos, cheguei ao CitiBank, que pelo visto era o único que funcionava. Saquei o dinheiro e segui para o departamento de vistos e passaportes, para perguntar como poderia fazer para extender meu visto caso necessário. Descobri que poderia fazer alí, porém eles haviam fechado as portas fazia mais de 2 horas e amanhã não abriria devido a um feriado especial. Não poderia ser pior, agora seria melhor não perder tempo para começar a pedalar.
Encontrei também a Embaixada do Brasil, onde seria bom ter uma conversa, mas ela também já estava fechada em plena tarde de quinta-feira e, claro, também não abriria amanhã devido ao feriado que havia sido declarado derrepente. Não poderia fazer muita coisa a não ser conhecer um pouco da cidade então. Entretanto, Islamabad não conta com muitas atrações, sendo mais uma cidade política que turística.
Segui para um dos poucos pontos de interessa da cidade, a Mesquita Faisad, a qual foi considerada a maior mesquita do mundo durante a década de 80. Hoje ela não é mais a maior do mundo, mas dizem que segue sendo a maior da Ásia, o que já é bastante. Eu cheguei ao local na hora do pôr-do-sol, o que deixou a beleza da mesquita ainda maior. Com o Sol se pondo de um lado e uma cadeia de montanhas do outro, eu estava no local certo na hora certa.
Dalí segui para a cidade, atrás de algo para comer, pois já era noite e eu ainda estava com o estômago vazio. Demorei para encontrar um restaurante, mas valeu a pena. Dalí tomei um pequeno táxi até a hospedagem onde eu estava e me preparei para encerar mais um dia e planejar minha ida para Lahore amanhã.
Sexta-feira (9 de novembro de 2007)
Islamabad – Lahore
Acordei sozinho no quarto para 4 pessoas e depois de uma banho quase frio, arrumei minha bagagem para seguir para Lahore. Fui para a rua e tomei um táxi para o terminal de ônibus. Alí descobri que não era uma boa idéia tomar um daqueles ônibus, que além de demorar não eram lá muito confortáveis. Segui então para outra companhia de ônibus, um pouco mais longe e pelo caminho, vi que havia uma confusão na estrada, o que estava obrigando o taxista a contornar em plena rodovia e seguir pela contra-mão.
Depois de algumas manobras arriscadas eu descobrir o motivo da confusão, haviam acabado de matar 2 sujeitos na pista e as ambulâncias já estava alí e a polícia a caminho. Num determinado ponto, não era mais possível mais seguir no táxi, pois todas as pistas haviam sido fechadas, agora eu tinha que caminhar até a companhia de ônibus.
Essa companhia apesar de organizada tinha uma demanda muito grande que resultava em enormes filas para comprar as passagens. Tive apenas tempo de comprar a minha passagem e entrar no ônibus, que era mesmo confortável, mais até do que eu esperava, e seguir tranqüilamente para Lahore. A viagem durou exatamente o tempo previsto e por volta das 3 da tarde eu já estava num ponto de Lahore que eu nem fazia idéia. Tomei então um rickshaw para a hospedagem onde eu estava e pelo caminho descobri que o feriado havia chegado em Lahore também, pelo menos nas instituições governamentais.
Ao chegar na hospedagem descobri que não havia cama para mim e acabei encontrando quase todas as pessoas que estavam alí durante a semana passada. Parecia que ninguém queria ir embora dalí. Fiquei conversando com todos e com as novas caras também e até entrando numa discussão, pelo simples fato de eu dizer que não gosto da Índia para os amantes do país.
O dia acabou comigo dormindo no terraço e sabendo que ainda teria amanhã pela frente, mas que seria basicamente um dia de trabalho.
Sábado (10 de novembro de 2007)
Lahore
Apesar da hospedagem oferecer algumas falicidades para seus hóspedes, como água tratada e máquina de lavar roupa, tudo gratuitamente, esses benefícios era altamente disputados. Ontem eu não havia conseguido lavar a minha roupa e hoje estava brigando para usar a máquina e por algum lugar no varal. Após lavar meu saco de roupa suja eu resolvi inciar o processo de atualização do meu site, que só não pode ser realizado pois a energia elétrica da cidade acabou e não tinha previsão de voltar.
A energia voltou pela tarde e eu consegui fazer um pouco do que precisava, pelo menos até a noite chegar e todos os hóspedes decidirem fazer um churrasco e até comprar cervejas. Malik, o dono da hospedagem, também entrou na festa e até convidou alguns músicos para participar, o que musicou o churrasco realizado no terraço do prédio localizado no centro de Lahore.
Domingo (11 de novembro de 2007)
Lahore
Apesar dos meus planos de iniciar minhas pedaladas ainda hoje eu percebi que se quisesse fazer as atualizações que queria isso não seria possível. Assim, desisti de começar a pedalar hoje e passei quase todo o dia na frente do computador para finalizar o que eu tinha que fazer. Quase todos os turistas foram embora e de cheia, a hospedagem ficou quase vazia no final desta semana paquistanesa.
Amooooooooooooooooooooooooooooooooooo
Essa saudade deixa meu coração apertado!
Deu vontade de conhecer o Pak??
Essa série está tudo de bom, que nem pude esperar pra postar a segunda parte.
Eu tinha colocado o link do site, mas deu erro em tudo aqui.. aff, no último post eu coloco oks?
Diário de Viagem - Segunda Parte
Segunda-feira (5 de novembro de 2007)
Gilgit – Karimabad (3 horas)
A noite havia sido fria. Fria como havia tempo que eu não via. Apesar do frio, os dias estavam espetaculares neste começo de outono, quando o clima ainda está bastante seco e o céu completamente azul. Dei uma volta pela cidade logo pela manhã, em busca de do centro de informação e de descobrir o preço da passagem aérea de volta, já que eu não estava nem um pouco interessado em tomar aquele ônibus mais uma vez.
O centro de informação parecia que não iria abrir tão cedo nesta segunda-feira, a companhia aérea cobrava uma valor mais caro do que eu esperava e a úncia coisa boa desta minha caminhada foi que eu encontrei a roupa paquistanesa que eu queria numa loja de roupas usadas e o melhor, por uma camisa e calça que eu queria, paguei apenas cerca de 7 Reais.
Depois disso eu voltei para a minha hospedagem, arrumei minhas coisas e parti para o ponto de ônibus, para tomar um veículo rumo à turística cidade de Karimabad, localizada no coração do Vale do Hunza (a melhor tradução que eu encontrei para Hunza Valley). A van comportava 18 pessoas e não sairia da estação enquanto não estivesse completa. Esperei cerca de 30 minutos até que o veículo estivesse lotado e então, espremido num dos bancos do veículo, segui para o norte.
A viagem foi muito melhor que a de ontem. Desta vez a estrada estava em bom estado – ela só não estava no trecho anterior porque ela foi devastada pelo terremoto de 2004, que também matou centenas de pessoas – e a viagem foi mais agradável, especialmente pelo fato de ter durado apenas 3 horas. No início da tarde eu já estava em Karimabad, numa hospedagem simples, barata e acolhedora, onde encontrei mais alguns viajantes.
Alí eu via a beleza da região em sua melhor forma. Algumas das montanhas mais altas do mundo, picos nevados, vales e geleiras, além de uma gente altamente hospitaleira e simpática, as quais levam a vida de uma forma serena e pacata, sendo muçulmanos, mas sem as paranóias que o islamismo por vezes cultiva. Senti-me em casa logo nos primeiros instantes no local.
Ao final do dia, após um pôr-do-sol de tirar o fôlego, todos os hóspedes do hotel jantaram juntos e conversaram durante horas, até o sono chegar.
Terça-feira (6 de novembro de 2007)
Karimabad e arredores
Acordei cedo, junto com o sol na realidade. Queria ver o sol dar início ao dia iluminando primeiro o topo das montanhas que cercavam o vale. Relutando um pouco devido ao frio, eu coloquei diversas camadas de roupa e subi até o terraço da casa onde estava. O frio estava forte e as pequenas poças d’água pelo chão estavam congeladas. Apesar disso, a vista compensou o esforço: um céu sem nuvens e os raios de sol, quase que visíveis, chegavam apenas nos altos picos das montanhas com seus 8 e 7 mil metros.
Na medida que o sol iluminava de dourado cada um desses picos a neve derretia e pequenas núvens se formavam ao redor dos cumes. Fora eu e o o Ji (o dono da hospedagem, que sempre falava “ji” no final de cada frase, assim passei a chamá-lo de Ji), todos na hospedagem estavam dormindo, mas aos poucos começaram a acordar, na medida que o sol chegava e esquentava o ambiente.
Tomei um simples café da manhã e fui para o Baltiti Forte, como é conhecido este forte de mais de 800 anos que fica no alto de uma montanha, com picos de 7 mil metros ao seus fundo. Ao caminhar pelas ruas da cidade, passei pelo campo de polo, já desativado, pois não há mais cavalos na cidade, cruzei com alguns yaks (espécie de búfalos presente nas regiões mais altas) e cheguei ao forte.
Não havia quase ninguém na cidade e ninguém no forte, que ainda estava fechado e já eram 9 da manhã. A vida nas montanhas era mesmo diferente. Encontrei um guarda e ele disse que o forte logo abriria as suas portas. Enquanto esperava, observei algumas família começarem o seu dia. A população desta parte do país não carrega a fisionomia do sul asiático, mas sim do centro deste continente, de países que um dia já foram parte da URSS, como Kazaquistão, Tajiquistão e Usbequistão (os vizinhos mais próximos desta região).
Mais que a diferente fisionomia, o comportamento das pessoas também é bastante diferente. Uma grande hospitalidade e uma enorme simpatia faz parte dessas pessoas. Depois de esquecer do tempo vendo a vida daquelas pessoas, o guarda do forte veio me avisar que o local já havia aberto suas portas e que eu poderia entrar.
No valor do ticket de entrada, que não era barato para o Paquistão, estava incluso um guia e boa parte daquele dinheiro iria para ajudar na restauração do local. Logo apareceu o guia e me mostrou todo o local, que para a residência de uma “família real” não era assim tão grande e mais rústico que o normal. O prédio como um todo era marcado por linhas e formas tibetanas, já que na época que foi construído a região estava mais influenciado por esse povo, incusive tendo o budismo como religião.
No subsolo do prédio de 3 andares, estava um pequeno calabouço para os desertores, que ficavam detidos alí por pouco tempo antes de serem tranferidos para o que é o hoje a fronteira entre China e Paquistão, onde eram apenas largados por lá. Alguns morriam, outros ficavam por lá e outros ainda conseguiam voltar, depois de anos, para o Vale do Hunza.
No andar intermediário, ficava a cozinha, ainda negra pela fumaça, com panelas de pedra e algumas de metal – trazidas da China –, também havia o armazém de frutas secas, que ficavam estocadas para o inverno. Somente no 3º andar havia outras influências que não tibetanas, no caso especialmente da Kashemira. Neste andar estavam os cômodos da família real, um para o verão e outro para o inverno, este com mais tapetes e cobertores, além da sala de instrumentos musicais, onde ocorriam as celebrações. Por fim, havia o terraço, com vista para o vale e para as montanhas, com uma decoração sem muitos detalhes.
Após a visita ao forte, eu já estava próximo das montanhas e de uma gelereira, resolvi então caminhar até lá, apesar de saber que não seria uma caminhada fácil. Comecei cruzando o vale e já subindo uma ingreme elevação repleta de pedras e areia o que foi a primeira dificuldade para os meus tênis de sola completamente lisa. Depois tive que cruzar um pequeno rio caminhando sobre pedras soltas. Até aí tudo bem, mas depois havia pedras gigantes em meu caminho e passagens realmente difícies. Ao chegar na metade, tive que admitir que não seria mais possível, assim voltei para o pequeno vilarejo, já com algumas bolhas nos pés e cortes nas mãos.
No vale eu almocei e depois fui até o Rio Hunza, justamente na base do vale. Além do fato de estar na base do vale, alí eu podia ver algumas formações rochosas curiosas e pontes frágeis sobre o rio. Após o passeio eu tinha que voltar e não queria subir caminhando até o vilarejo, assim eu usei a técnica que as pessoas nativas usam: corri atrás de uma van, saltei e agarrei num suporte metálico que há na traseira do veículo. Agarrado alí eu subi a montanha e quando era hora de descer eu apenas saltei do veículo e caminhei por mais alguns metros até minha hospedagem, para então ver o sol se pôr, jantar e me preparar para mais uma noite fria.
Quarta-feiram (7 de novembro de 2007)
Karimabad – Passu – Gilgit
Acordei com uma dúvida: voltaria para Gilgit para depois seguir para Islamabad ou seguiria mais ao norte, perto da fronteira com a China, na bela cidade de Passu. Todos os que estava na hospedagem haviam ido embora e eu ainda tinha essa dúvida em minha cabeça. Fui para cidade para comprar um mapa que eu queria, mas descobri que o o comércio abriria suas portas somente depois das 11 da manhã, como de costume.
Assim, resolvi sair da cidade sem meu mapa mesmo, agora com um destino certo, mais ao norte. Pulei então em outro carro, agarrei na barra de ferro e segui até a próxima cidade, 5 quilômetros dalí, Aliabad. Em Aliabad ainda pensava se valeria mesmo a pena seguir para Passu, mas resolvi não pensar muito e apenas entrar na van lotada de gente e segui até lá.
O motorista estava correndo bem e a viagem foi mais rápida do que eu esperava, os problemas, entretanto, começaram quando eu cheguei ao local. A aldeia parecia uma cidade fantasma. Não havia ninguém por alí, havia placas de hoteis, mas todos eles estavam fechados, assim como as 5 vendas do vilarejo. Bati na porta dos hoteis e ninguém apareceu, busquei entrar alguém pelas ruas e nada. Depois de algum tempo encontrei um bando de crianças jogando cricket, mas infelizmente nenhuma delas falava inglês.
Não sabia mais o que fazer. Um sujeito então parou seu carro na beira da estrada, perto da onde eu estava e eu fui falar com ele. Não tive boas notícias, parecia que hoje era algum dia especial no local (ou fora do local) e diversos do moradores dalí haviam ido para outra cidade. Talvez eles voltassem pela noite, mas ainda era incerto. O pior mesmo era que não havia mais nenhum tipo de transporte para eu voltar agora. Sem comida, sem local para ficar, eu sabia que estava com problemas e quando o sol fosse embora eu poderia congelar alí.
Voltei para a estrada e no mesmo instante eu vi um carro passando, estendi a mão e pedi uma carona. No mesmo instante o carro parou e me convidou para entrar. Os 2 sujeitos dos bancos dianteiros pareciam simpáticos, no entanto não falavam uma palavra em inglês e eu quase nada de urdu. A comunicação estava prózima de zero, mas o suficiente para eu conseguir explicar que eu queria sair dalí. Inicialmente falei de Aliabad, mas eles disseram que estava indo para Gilgit, aonde eu queria chegar. Segui com eles até Gilgit, da onde eu iria tomar um avião para Islamabad amanhã.
Quando cheguei na cidade, por volta das 5:30 da tarde, tinha dúvidas se encontraria o escritório da companhia aérea ainda aberto. Todas instituições fecham antes das 4 por aqui. Corri então para o escritório da PIA (nome da companhia aérea) e como eu já esperava eles estavam fechados. Não desisti, nunca desisto tão cedo. Bati na porta e ninguém. Bati na porta novamente e apareceu alguém. Falei com o senhor e ele disse para eu voltar amanhã, pois hoje eles já estavam fechados. Tentei falar com ele e ele, que já estava sem paciência, chamou outro funcionário.
Ao falar com este outro funcionário disse que tinha uma reserva e ele abriu a porta para mim. Agora poderia comprar meu ticket sem problemas. O problema foi que ao comprar meu ticket de avião, me sobraram quase 300 Rúpias (menos de 10 Reais) e eu ainda tinha que dormir e comer com esse dinheiro. Voltei então para a hospedagem onde eu estava ficando e pedi o quarto mais barato, 150 Rúpias, e uma prato de comida barato e que me sustentasse, mais 100 Rúpias.
Tinha ainda mais 40 Rúpias, o que não daria para muita coisa, mas pelo manos eu chegaria até Islamabad, onde poderia encontrar um caixa eletrônico para sacar mais dinheiro. Agora, não me restava muito a fazer, senão dormir e esperar.
Quinta-feira (8 de novembro de 2007)
Gilgit – Islamabad
Acordei cedo, tomei um banho quente, não tomei um café da manhã hoje, pois não tinha dinheiro e apenas esperei chegar a hora de seguir para o aeroporto. Paguei o hotel e eles me ajudaram dando um desconto de 100 Rúpias, na minha conta, dizendo que eu iria precisar desse dinehiro quando eu chegasse em Islamabad. Aceitei o desconto e fui embora para o aeroporto.
Caminhei até o aeroporto que tinha sua única pista quase que no centro da cidade. No entanto, havia chegado cedo demais e tive que esperar na rua, já que eles não tem sala de espera. Quando chegou o momento de entrar fui revistado algumas vezes e depois cheguei a uma pequena sala destinada apenas aos passageiros. Esperei por mais uma hora até abrirem a porta para os passageiros caminharem até a pista e entrarem no único avião do local.
Eu tinha 2 motivos para estar tomando uma avião. O primeiro era a vista que eu ganharia do avião, que poderia mostrar diversas das altas montanhas da região, incluindo o Nanga Parbat, com seus 8.125 metros, o segundo motivo era que eu não queria realizar mais uma vez a viagem insalubre de 17 horas entre Gilgit e Islamabad. Por isso, pedi um assento na janela do lado esquerdo do avião ao embarcar. Fui atentido, podem me deram o pior assento, justo debaixo da asa.
Ao avião decolou e na medida do possível eu consegui ter uma boa visão das montanhas mais altas do mundo. A incrível paisagem permaneceu durante toda a curta viagem de 55 minutos. Aterrissar no aeroporto de Islamabad, o qual é usado para vôos domesticos, internacionais e militares, foi tranqüilo, o problema foi que os caixa-eletrônicos do aeroporto estava quebrados e eu continuava sem dinheiro.
Resolvi pedir uma carona para Islamabad, que estava a alguns quilômetros dalí. Ninguém me deu uma carona, mas um sujeito me deu 100 Rúpias. Agora já tinha 200 Rúpias de esmola e poderia tomar um táxi. Pedi para o táxi seguir para um banco, ele conhecia bem a cidade, mas o que eu não sabia é que quase nenhum banco era compatível ao sistema internacional que eu uso para sacar dinheiro, Cirrus. (eu tb usava esse.. mto ruim de achar, somente o Banco Samba aceita, hauhauahua conhecidencia?)
Depois de uma longa jornada e diversos caixas-eletrônicos, cheguei ao CitiBank, que pelo visto era o único que funcionava. Saquei o dinheiro e segui para o departamento de vistos e passaportes, para perguntar como poderia fazer para extender meu visto caso necessário. Descobri que poderia fazer alí, porém eles haviam fechado as portas fazia mais de 2 horas e amanhã não abriria devido a um feriado especial. Não poderia ser pior, agora seria melhor não perder tempo para começar a pedalar.
Encontrei também a Embaixada do Brasil, onde seria bom ter uma conversa, mas ela também já estava fechada em plena tarde de quinta-feira e, claro, também não abriria amanhã devido ao feriado que havia sido declarado derrepente. Não poderia fazer muita coisa a não ser conhecer um pouco da cidade então. Entretanto, Islamabad não conta com muitas atrações, sendo mais uma cidade política que turística.
Segui para um dos poucos pontos de interessa da cidade, a Mesquita Faisad, a qual foi considerada a maior mesquita do mundo durante a década de 80. Hoje ela não é mais a maior do mundo, mas dizem que segue sendo a maior da Ásia, o que já é bastante. Eu cheguei ao local na hora do pôr-do-sol, o que deixou a beleza da mesquita ainda maior. Com o Sol se pondo de um lado e uma cadeia de montanhas do outro, eu estava no local certo na hora certa.
Dalí segui para a cidade, atrás de algo para comer, pois já era noite e eu ainda estava com o estômago vazio. Demorei para encontrar um restaurante, mas valeu a pena. Dalí tomei um pequeno táxi até a hospedagem onde eu estava e me preparei para encerar mais um dia e planejar minha ida para Lahore amanhã.
Sexta-feira (9 de novembro de 2007)
Islamabad – Lahore
Acordei sozinho no quarto para 4 pessoas e depois de uma banho quase frio, arrumei minha bagagem para seguir para Lahore. Fui para a rua e tomei um táxi para o terminal de ônibus. Alí descobri que não era uma boa idéia tomar um daqueles ônibus, que além de demorar não eram lá muito confortáveis. Segui então para outra companhia de ônibus, um pouco mais longe e pelo caminho, vi que havia uma confusão na estrada, o que estava obrigando o taxista a contornar em plena rodovia e seguir pela contra-mão.
Depois de algumas manobras arriscadas eu descobrir o motivo da confusão, haviam acabado de matar 2 sujeitos na pista e as ambulâncias já estava alí e a polícia a caminho. Num determinado ponto, não era mais possível mais seguir no táxi, pois todas as pistas haviam sido fechadas, agora eu tinha que caminhar até a companhia de ônibus.
Essa companhia apesar de organizada tinha uma demanda muito grande que resultava em enormes filas para comprar as passagens. Tive apenas tempo de comprar a minha passagem e entrar no ônibus, que era mesmo confortável, mais até do que eu esperava, e seguir tranqüilamente para Lahore. A viagem durou exatamente o tempo previsto e por volta das 3 da tarde eu já estava num ponto de Lahore que eu nem fazia idéia. Tomei então um rickshaw para a hospedagem onde eu estava e pelo caminho descobri que o feriado havia chegado em Lahore também, pelo menos nas instituições governamentais.
Ao chegar na hospedagem descobri que não havia cama para mim e acabei encontrando quase todas as pessoas que estavam alí durante a semana passada. Parecia que ninguém queria ir embora dalí. Fiquei conversando com todos e com as novas caras também e até entrando numa discussão, pelo simples fato de eu dizer que não gosto da Índia para os amantes do país.
O dia acabou comigo dormindo no terraço e sabendo que ainda teria amanhã pela frente, mas que seria basicamente um dia de trabalho.
Sábado (10 de novembro de 2007)
Lahore
Apesar da hospedagem oferecer algumas falicidades para seus hóspedes, como água tratada e máquina de lavar roupa, tudo gratuitamente, esses benefícios era altamente disputados. Ontem eu não havia conseguido lavar a minha roupa e hoje estava brigando para usar a máquina e por algum lugar no varal. Após lavar meu saco de roupa suja eu resolvi inciar o processo de atualização do meu site, que só não pode ser realizado pois a energia elétrica da cidade acabou e não tinha previsão de voltar.
A energia voltou pela tarde e eu consegui fazer um pouco do que precisava, pelo menos até a noite chegar e todos os hóspedes decidirem fazer um churrasco e até comprar cervejas. Malik, o dono da hospedagem, também entrou na festa e até convidou alguns músicos para participar, o que musicou o churrasco realizado no terraço do prédio localizado no centro de Lahore.
Domingo (11 de novembro de 2007)
Lahore
Apesar dos meus planos de iniciar minhas pedaladas ainda hoje eu percebi que se quisesse fazer as atualizações que queria isso não seria possível. Assim, desisti de começar a pedalar hoje e passei quase todo o dia na frente do computador para finalizar o que eu tinha que fazer. Quase todos os turistas foram embora e de cheia, a hospedagem ficou quase vazia no final desta semana paquistanesa.
Amooooooooooooooooooooooooooooooooooo
Essa saudade deixa meu coração apertado!
Deu vontade de conhecer o Pak??
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Diário de Viagem- Semana 1
Muito interessante são 4 semanas de diário de viagem, divirtam-se!
Primeira Parte
Terça-feira (30 de outubro de 2007)
Amritsar – Lahore (61 km)<>
Já sabia que hoje que o meu último de dia de Índia e eu não tinha como negar a felicidade que isso me trazia. Ao mesmo tempo também não podia esconder a certa apreensão que eu tinha dentro de mim por estar entrando no Paquistão, uma terra que carrega tantas histórias e lendas em seu lado de fora. Se todas elas fossem verdade eu já estaria morto antes mesmo de chegar em minha primeira cidade no país, mas precisava saber o que era verdade neste mundo feito de mentiras.
E estava disposto a pagar caro por isso. Pedalei então em direção à fronteira Índia/ Paquistão.
Despedi-me do Templo Dourado e do povo sikh. Depedi-me das hordas de turístas. Despedi-me dos hippies buscadores da felicidade. E finalmente subi na bicicleta. Antes de deixar a cidade, no entanto, eu me perdi pela última vez na Índia e então encontrei o caminho. Pouco mais de uma hora depois eu já estava na fronteira, pronto para iniciar o processo de carimbos, formulários e horas de espera.
O organização do lado indiano não conseguia ser boa mesmo, assim como a educação dos funcionários. Depois de mais de uma hora de espera, eu consegui ganhar o cartão verde para cruzar a fronteira, mas antes fui trocar minhas rúpias indianas que não valiam nada no lado de lá. Depois da troca, tive ainda que assinar mais alguns papeis e enfim cruzei o portão.
Pensei que o lado paquistanês seria pior. Apenas pensei. Com toda a educação e um ótimo inglês os policiais paquistaneses me indiacaram aonde ir. Alí um sujeito me indicou o que fazer e onde deixar a bicicleta. Preenchi o formulário e depois de ter meu passaporte carimbado dentro do centro de imigração que poderia ser de qualquer país desenvolvido, tamanha organização e limpeza, fui passar pela revista de bagagem, mas os simpáticos policiais apenas perguntaram o que eu tinha e me deixaram passar sem abrir nenhuma de minhas malas.
Pronto, estava oficialmente no Paquistão e havia sido mais fácil do que eu imaginava. Pedalei poucos metros para dentro do país e já via uma cultura diferente, um idioma diferente, trajes diferentes e rostos diferentes. Era uma diferença enorme, que não chegavam ao outro lado devido à pesada fronteira que não deixa o caminho livre entre os 2 países.
A estrada continuava boa, assim como era na Índia, masuase não havia carros na pista e os poucos que haviam quase não buzinavam. Não eram excelentes motoristas, mas pelo menos não faziam questão de mostrar suas buzinas. Isso foi um alívio para mim. A poluição continuava pesada e fiz uma breve parada perto de um posto de gasolina ao lado da pista e percebi que diversas pessoas tinham armas, que não eram, mas sim metraladoras e escopetas.
Essa imagem, numa foto tendenciosa – como as que são colocadas nas revistas –, poderia indicar o início de uma guerra, mas a realidade é que até mesmo aquelas pessoas que levavam armas eram simpáticas e educadas. Era uma cena peculiar e, de certa forma, estranha também. De toda forma, não fiquei aí para ver como eles usavam suas armas e segui em frente, na direção de Lahore, a 2ª maior cidade do país.
Na medida em que eu me aproximava de Lahore o trânsito ficava cada vez mais caótico, mas mesmo assim, sem buzinas. Ao entrar na cidade, eu sabia que seria bom ligar para o número de telefone que haviam me dado, mas para isso seria bom conseguir um telefone. Como eu já previa aqui não há telefones públicos e a melhor saída seria comprar um novo chip telefônico para mim e já ter um número paquistanês também.
Estava perdido na cidade e não tinha a menor idéia de que direção eu tinha que tomar, assim resolvi apenas procurar uma loja de celular. Em meio à confusão das ruas foi um pouco difícil me deslocar de um lugar para o outro, mas num tempo menor do que eu previa eu já tinha meu número de celular do Paquistão, por uma quantia equivalente a 6 Reais. Com o telefone funcionando eu resolvi ligar para o número que eu tinha e – sem me surpreender – descobri que o número estava desligado.
Era hora de mudar os planos. Seria bom eu ir para algum hotel da cidade. Segui então para um hotel que é uma instituição na cidade e creio que mais de 90% dos turistas estrangeiros ficam nele quando em Lahore. Vi o nome da rua e fui perguntando pelo caminho. Ao contrário da Índia, as pessoas aqui me informavam com todo o carinho e pareciam realmente preocupadas comigo. Fiquei feliz com isso, mesmo quando eu não entendi nada da informação que eles estavam me dando em urdu (idioma local).
Em pouco tempo e depois de poucas ruas eu cheguei ao local, que à primeira vista, não parecia nada agradável. Localizado numa rua pequena e suja, com apenas uma pequena porta que dizia o nome do hotel: Regale Internet Inn. Depois da porta havia um jogo de escadas que já levava para o 2º andar do prédio. Assim deixei a bicicleta no lado de fora e subi para conferir o lugar.
Os quartos estavam cheios e só havia algumas camas no dormitório. Isso não era um probelma para mim, o mais difícil mesmo foi levar a bicicleta e os alforjes para cima. Depois foi tudo tranqüilo. Conheci o dono do local, Malik, e fui aos poucos conhecendo todos os hóspedes e até mesmo os moradores do local, gente que parece que chegou para ficar. Quando arrumava minhas coisas no quarto para 6 pessoas conheci um casal canadense que estava por alí e depois 3 viajantes da Islândia, o que é realmente difícil de ver, já que este país tem apenas 300.000 habitantes.
Com os islandeses eu saí para comer. Eles eram muito simpáticos e naquele momento já estavam há mais de uma mês no Paquistão, onde ficaram em Karachi, inclusive durante o incidente da bomba. Eles não estavam apenas viajando, mas sim a procura de um outro lugar para viver, já que a Islândia parecia não agradá-los. Tudo indicava que eles não sairiam mais do Paquistão e agora eles estavam apenas escolhendo um lugar para montar uma casa.
Depois de tanto tempo de Índia, o Paqusitão parecia um milagre em meu caminho. Limpo (comparando com a Índia), sem buzinas, com pessoas educadas e até mesmo carne de vaca, era tudo o que eu queria. Podia até mesmo comer sem me preocupar tanto como na Índia, onde não me lembro de ter comido algum prato sem uma cabelo, mosquito ou algo que eu não consegui identificar. Parecia que meu caminho estava mudando e para melhor.
Quarta-feira (31 de outubro de 2007)
Lahore
Lahore pedia alguns dias para ser conhecida. Aparentemente não havia muita coisa para ser vista nesta cidade de 12 milhões de habitantes, mas fazia tempo que eu não me sentia tão bem como na hospedagem onde eu estava. No pequeno hotel onde eu estava já conhecia quase todos e me sentia em casa, o que eu poderia fazer era aproveitar um pouco dessa boa sensação que eu não conseguia sentir na Índia.
Hoje eu tirei o dia para ver alguns locais da cidade, o que eu queria fazer logo pela manhã, mas no começo do dia de hoje eu descobri que o comércio aqui abre apenas por volta das 10 horas da noite, o que fez que eu demorasse para encontrar um mercado aberto para comprar meu café da manhã. Somente depois disso é que eu saí, com rumo à cidade velha, aonde está localizado o Forte de Lahore.
Ao chegar no local tive uma surpresa, ele estava fechado. Não fazia sentido, ele não fechava para almoço, tampouco para siesta, mas os policiais não estavam deixando ninguém entrar. Perguntei o que estava acontecendo e eles disseram que algum político americano estava alí dentro e enquanto ele estivesse alí, ninguém poderia entrar. Como não tinha escolha, fui para o parque da cidade, logo à frente do forte, para esperar o tempo passar.
Alí vi muita gente e muitas dessas pessoas vinha conversar comigo. Nessas conversas eu fui descobrindo que o paquistanês, ao contrário do que a mídia diz, é um sujieto muito bom. Eles acreditam que a Índia é uma país bom e não tem nada contra os Estados Unidos, o que me chamou muito a atenção. Já os indianos nunca falam nada de bom do Paquistão e os americanos vêem o país como o novo celeiro de terroristas do mundo. Era interessante descobrir um pouco mais do Paquistão.
As conversas foram interessantes e me senti bem com os paqusitaneses, com quem fiquei conversando até os portões do Forte se abrirem somente após as 3 da tarde, quando os americanos resolveram deixar o local. O forte é um resquício da dinastia Mughal, a mesma que dominou a Índia durante séculos e levantou as construções mais famosas do país, entre elas o Taj Mahal. A idade precisa do forte não é sabida, mas o que se sabe é que sua forma atual foi dada pelo imperador Akbar, o qual transformou Lahore em sua capital em 1566.
Seguindo as mesmas linhas das construções muçulmanas encontradas no norte indiano, o Forte de Lahore, conta com diversas divisões, palácios e templos, incluindo até mesmo uma caminho para elefantes, o que era comum naquela época. Igualmente grandioso e mais elaborado que o forte está a Mesquita Badshasi (Badshasi Mosque), que foi finalizada em 1647 por Aurangzeb (filho de Shah Jahan), tornando-se uma das maiores mesquitas do mundo.
Estar alí durante o pôr-do-sol apenas deixou o lugar ainda mais especial. Vi o dia acabar diante daquela imponente mesquista e somente então voltei para a minha hospedagem, encontrando ainda mais gente que havia chegado hoje, especialmente para aproveitar a quinta-feira de Lahore, que trás uma agenda recheada de eventos Sufi – o misticismo muçulmano.
Depois de conversar com tanta gente comecei a perceber que eu não poderia simplesmente deixar o país sem conhecer a região norte do Paquistão, uma região conhecida pelas suas montanhas (as mais altas do mundo), pela hospitalidade das pessoas e por ter o maior números de geleiras (glaciares) do mundo, depois da Antártida. Pedalar seria praticamente impossível, levando em consideração o meu tempo no país, mas um ônibus poderia resolver isso. De qualquer forma, ainda tinha a quinta-feira em Lahore para decidir.
Quinta-feira (1º de novembro de 2007)
Lahore
Pela manhã eu saí com algumas missões a cumprir, entre elas encontrar o correio, uma bicicletaria, comprar uma roupa tradicional, chamada shalwar-kamiz (algo como “calça e camisa”), a qual todos os homens usam e assim eu poderia passar despercebido em algumas regiões do país, com os trajes tradicionais e minha barba de alguns meses.
Encontrar o correio foi fácil, as bicicletarias também, até mesmo as lojas de roupas não foi assim tão difícil, porém não consegui fazer nada. Algumas das coisas que eu queria enviar para o Brasil era proibido aqui no Paquistão, como um simples DVD, eu precisava pegar minha bicicleta e levá-la para a bicicletaria e as roupas que eu encontrei não eram bem aquelas que iriam me fazer passar despercebido, pois tinham tantos detalhes, que eu chamaria mais a atenção usando elas que não usando nada.
Quando eu voltei para a hospedagem já era depois do meio-dia e as pessoas já se preparavam para ir até uma mesquita da cidade para conferir uma série de apresentações de música devocional muçulmana, chamada de qawwali (desse gênero musical o maior expoente é, sem dúvida, Nusrat Fateh Ali Khan, que morreu há uma década mas deixou uma grande obra que ainda pode ser apreciada).
Depois de rodar pela cidade, com mais de 20 turistas, cheguei à mesquita da cidade, onde via de regra havia apenas homens, todos sentados, olhando apenas e, algumas vezes, 1 ou 2 dançado ao som da música que o grupo tocava. Os cantores eram muito bons e a aprensatação que deixava cada banda tocar apenas 1 música durou por mais de 1 hora. Depois das apresentações que eram retribuidas não com palmas, mas sim com uma banho de dinheiro (recolhido durante a performance) sobre os músicos, seguimos para uma sala do local, onde nos serviriam o almoço, que comemos com as mãos.
Após todo o processo, voltamos para a hospedagem, mas no meio do caminho os grupos se separaram e acabaram cada um seguindo um caminho diferente. Quando eu cheguei na hospedagem, fiquei boa parte do tempo conversando com algumas pessoas e buscando organizar algumas atividades que eu tinha que fazer, porém quando eu vi já estava com fome, saindo para comer mais uma vez e depois já me preparando para ir conferir uma outra apresentação de música qawwali, porém desta vez, num estilo mais ritualístico.
Todos nós subimos novamente nos pequenos rickshaws e seguimos até um ponto distante da cidade, numa mesquista diferente que mais parecia uma casa. Porém, mas diferente que a mesquita era o que estava acontecendo dentro dela. Uma multidão se concentrava dentro do local para ver 2 sujeitos tocarem tambores num ritmo frenético, que conduzia as pessoas para um estado de transe. Como se não bastanssem os tambores, todos alí na platéia fumavam hashish quase que sem parar, num ato que faz parte da religião deles.
Mesmo aqueles que não fumavam já estavam entrando em transe também com a repetição da música e a dança de alguns poucos, que me lembrava algo como um terrero de umbanda no Brasil. A atmosfera do local foi apenas quebrada quando um sujeito chegou alí para tocar seu saxofone. Nada contra saxofones, porém naquele momento onde apenas os tambores falavam, algo ao estilo de Kenny G. não parecia se encaixar muito bem no repertório.
O sujeito sofreu com seu saxofone, já que o som de seu instrumento era incompatível com o som dos tambores. Eles foi persistente, mas num determinado momento teve que desistir. A partir daquele instante os tambores passaram a tocar mais alto e os cigarros carregados de hashish voltaram a se tornar apenas fumaça. Entretanto, eu já estava cansado daquilo e resolvi ir embora de volta para a hospedagem e encerrar este dia carregado de misticismo muçulmano.
Sexta-feira (2 de novembro de 2007)
Lahore
Meus planos era de hoje já deixar a cidade, mas no decorrer do dia persebi que isso não seria possível, pelo menos não hoje. Após o café da manhã muita gente foi embora, já que muitos ficam na cidade apenas para conferir as noites de música e rituais antes de seguirem seus rumos. A hospedagem que não tinha mais espaço nos útimos dias e obrigava as pessoas a dormirem no terraço do prédio, agora estava quase vazia.
Despedi-me de todos e voltei para minhas missões de dias atrás. Agora segui para o correio do país e não perdi muito tempo alí. Depois fui até um bicicletaria e alinhei minha roda traseira, que havia se tornado oval após a Índia e, em conseqüencia disso, os raios estavam sempre quebrando. Arrumei a bicicleta também. A única coisa que ainda me faltava, mas que a essa altura eu já havia desistido era um traje paquistanês.
Decidi então almoçar antes de voltar para a hospedagem e durante o meu almoço eu conheci um juíz do tribunal de justiça de Lahore. Fomos conincidentemente colocados na mesma mesa do restaurante e acabamos conversando bastante, antes de encerrarmos nossa refeição e cada um seguir o seu rumo.
Pela tarde na hospedagem, busquei atualizar meus diários e fotos antes de deixar a cidade, o que eu faria amanhã mesmo de qualquer forma. Segui até a noite escrevendo e buscando algumas informações sobre o país e coisas do gênero, até que fui interrompido pela chegada de alguns músicos que iriam tocar (qawwali) no terraço do prédio. Segui então para o terraço e assisti à aprensatação dos músicos, que fizeram tudo de forma gratuita. Ao final do show eu voltei para o computador, mas acabei dormindo na frente da tela, tão cansado que eu estava.
Sábado (3 de novembro de 2007)
Lahore – Islamabad – caminho às montanhas do norte
Eu acordei cedo e logo comecei a separar o que eu levaria em minha curta viagem e o que eu deixaria em Lahore, quase tudo. Sabia que se eu ficasse em Lahore, cercado de tanta gente interessante, eu não conseguiria trabalhar e seria melhor eu sair dalí o quanto antes. E meu destino eu já havia decido, o norte do país.
Eu que me sentia em casa na hospedagem onde eu estava, passei a reparar um ponto interessante: o quanto o Paquistão é diferente da Índia. Mesmo estando tão perto há inúmeras diferenças, inclusive em relação aos seus turístas. Aqui ninguém vem em busca de mestre, atrás de resposta ou como marinheiro de primeira viagem, aqui só vem quem sabe viajar e, especialmente, aqueles que não acreditam em tudo o que a imprensa diz, porque os que acreditam tem medo até mesmo de pensar no nome deste país.
Todos os estrangeiros que eu conheci aqui tinham uma história incrível. Diversos viajando de bicicleta, de moto, de paraglider, ou mesmo vindo de países como Afeganistão e Iraque. Não havia como negar que as histórias que eram contadas nesta hospedagem eram as melhores que eu já havia ouvido. Além disso havia uma grande troca de informações entre os viajantes que quase sempre seguiam em direções opostas.
Mesmo atraído pelo ambiente eu deixei a hospedagem hoje, por volta do meio dia, com apenas uma mochila, uma bolsa e minha câmera. Segui para a periferia da cidade, até um terminal de ônibus, da onde eu tomaria um coletivo para Islamabad, a capital do país. Isso foi fácil, um rickshaw me levou até o terminal onde os ônibus saia para a capital do país a cada 20 minutos. O ônibus era muito melhor do que eu poderia esperar: ar condicionado, assentos espaçosos e tudo muito organizado.
Numa estrada perfeita o veículo percorreu quase 300 quilômetros em apenas 4 horas e meia. Parecia que algo estava errado, tudo estava muito perfeito. Quando eu cheguei em Islamabad, com a ajuda de um senhor que eu conhecera no ônibus eu tomei um táxi para a cidade vizinha, Rawapindi, aonde estava o terminal da NATCO (Northern Areas Transport Company), de onde partiam os ônibus para as regiões nórdicas do país.
Eu estava pensando em dormir uma noite em Islamabad, mas resolvi já reguir de uma vez para o norte do país e assim ganhar um dia de viagem. Ao chegar na estação de ônibus já era noite e eu não tinha almoçado e nem mesmo jantado e pelo visto iria seguir assim mesmo. Comprei então a minha passagem de ônibus, cuja saída estava marcada para as 8 da noite, para uma viagem nada fácil que prometia durar de 15 até 18 horas.
Seriam mais de 24 horas dentro de um ônibus e eu já sabia que não seria fácil, mas eu não tinha escolha caso quisesse mesmo chegar ao norte do país. Comprei um pacote de bolacha, uma garrafa de água e subi no ônibus para a longa jornada. A viagem começou bem, e eu não demorei muito para pegar no sono. O problema era que o meu assento quase não se reclinava, não havia muito espaço para as minhas pernas, espacialmente pelo fato de eu ter que levar minhas malas comigo, além do fato do sujeito de meu lado também gostar que de se esparramar.
No meio da noite eu já não aguentava mais ficar alí e numa das paradas do ônibus eu resolvi procurar algum assento vazio para tentar dormir. Sorte ou não, eu encontrei a última fileira de assentos vazia, o que deixaria eu dormir na horizontal alí. A desvantagem era que justamente no final do ônibus era onde o veículo mais trepidava e oscilava. De qualquer forma deitei nos assentos sujos e até me cobri com meu lençol, para ter mais conforto.
Dormir bem alí era uma missão quase impossível. O ônibus pulava tanto que eu constantemente voava dos assentos e algumas vezes até caia fora dele. Fora isso pela estrada havia uma espécie de controle policial rigoroso que me fazia descer do ônibus a todo o momento com meu passaporte para preencher um livro com minhas informações. Mesmo assim a viagem seguiu.
Domingo (4 de novembro de 2007)
À caminho das montanhas do norte – Gilgit
O dia nasceu e eu sabia que eu ainda tinha muito chão pela frente, pois não haviam se passado nem 12 horas ainda. Bastava paciência. Eu não tinha mais sono, mas me sentia cansado. Eu não queria dormir mais, mas não tinha o que fazer e no final das contas sempre acabava dormindo mais uma vez.
O ônibus parou mais uma vez para o café da manhã e naquele momento eu já sentia um pouco da região, incluindo a paisagem montanhosa e frio que fazia. Comi um ovo frito e um chapati, mais uma xícara de chá com leite e depois o ônibus seguiu em frente. Somente por volta das 13 horas, 17 horas depois da partida eu chegava em Gilgit, a maior cidade da região norte do Paquistão. A maior, mas mesmo assim apenas com cerca de 25 mil habitantes.
No momento que eu pisei na cidade meu pai me telefonou, senti que ele estava aflito, mais que o normal. Descobri então o porque: o Paquistão havia declado estado de emergência. Isso nunca é bom, mas eu ainda não sabia o quanto ruim isso era neste caso. De toda a forma, eu estava numa parte do país onde nada chegava, nem mesmo os conflitos políticos. Sabia que poderia ficar por aqui até a poeira baixar também, isto é, se houvesse mesmo poeira para baixar.
Busquei conversar com algumas pessoas sobre a situação política do país e todas já sabiam, mas não estavam se importando, pois sabiam que era apenas mais um jogo político de Musharraf, que é muito bem aceito pela população em geral, especialmente a população rural. O estado de emergência, apesar de deixar o país virtualmente “sem leis” não afetava o dia-a-dia das pessoas, muito menos dos turistas, que, por um ponto de vista, estariam ainda mais protegidos sob a asa deste Estado militar ainda mais fortalecido.
Alguns turistas, os que nem deveriam estar aqui, já estavam arrumando as malas para sair do país, como se todos fossem morrer. Estavam seguindo para a Índia em busca de segurança. Certo ou errados, na minha visão é mais fácil morrer de diarréia na Índia que por algum conflito aqui no Paquistão. De qualquer forma, eles estavam tomando as decisões deles. (huaauahauhaa)
Caminhei um pouco pela cidade e depois de alguns minutos eu decobri que não havia nada para ser visto na cidade, mas também descobri que as pessoas eram muito simpáticas e hospitaleiras nesta região do país, onde as pessoas tem outra fisionomia, mais parecida com a do centro asiático – Tajiquistão, Kazaquistão e outros “quistãos”. Descobri que na cidade eu poderia fazer uma trilha até perto de uma das mais altas e perigosas montanhas do mundo – Nanga Parbat, com seus 8.125 metros – ou assitir à uma emocionante partida de pólo, jogo comum na região.
A trilha seria interessante, mas iria me tomar muito tempo, assim resolvi amanhã mesmo sair da cidade, seguindo mais ao norte até um famoso vale da região, o Hunza Valley. Mas isso já parte da semana que vem.
Para ver fotos de mais paisagens clique aqui:
http://www.nohorizons.net/Countries/Pakistan/Files/Karimabad%20(2).htm
Primeira Parte
Terça-feira (30 de outubro de 2007)
Amritsar – Lahore (61 km)<>
Já sabia que hoje que o meu último de dia de Índia e eu não tinha como negar a felicidade que isso me trazia. Ao mesmo tempo também não podia esconder a certa apreensão que eu tinha dentro de mim por estar entrando no Paquistão, uma terra que carrega tantas histórias e lendas em seu lado de fora. Se todas elas fossem verdade eu já estaria morto antes mesmo de chegar em minha primeira cidade no país, mas precisava saber o que era verdade neste mundo feito de mentiras.
E estava disposto a pagar caro por isso. Pedalei então em direção à fronteira Índia/ Paquistão.
Despedi-me do Templo Dourado e do povo sikh. Depedi-me das hordas de turístas. Despedi-me dos hippies buscadores da felicidade. E finalmente subi na bicicleta. Antes de deixar a cidade, no entanto, eu me perdi pela última vez na Índia e então encontrei o caminho. Pouco mais de uma hora depois eu já estava na fronteira, pronto para iniciar o processo de carimbos, formulários e horas de espera.
O organização do lado indiano não conseguia ser boa mesmo, assim como a educação dos funcionários. Depois de mais de uma hora de espera, eu consegui ganhar o cartão verde para cruzar a fronteira, mas antes fui trocar minhas rúpias indianas que não valiam nada no lado de lá. Depois da troca, tive ainda que assinar mais alguns papeis e enfim cruzei o portão.
Pensei que o lado paquistanês seria pior. Apenas pensei. Com toda a educação e um ótimo inglês os policiais paquistaneses me indiacaram aonde ir. Alí um sujeito me indicou o que fazer e onde deixar a bicicleta. Preenchi o formulário e depois de ter meu passaporte carimbado dentro do centro de imigração que poderia ser de qualquer país desenvolvido, tamanha organização e limpeza, fui passar pela revista de bagagem, mas os simpáticos policiais apenas perguntaram o que eu tinha e me deixaram passar sem abrir nenhuma de minhas malas.
Pronto, estava oficialmente no Paquistão e havia sido mais fácil do que eu imaginava. Pedalei poucos metros para dentro do país e já via uma cultura diferente, um idioma diferente, trajes diferentes e rostos diferentes. Era uma diferença enorme, que não chegavam ao outro lado devido à pesada fronteira que não deixa o caminho livre entre os 2 países.
A estrada continuava boa, assim como era na Índia, masuase não havia carros na pista e os poucos que haviam quase não buzinavam. Não eram excelentes motoristas, mas pelo menos não faziam questão de mostrar suas buzinas. Isso foi um alívio para mim. A poluição continuava pesada e fiz uma breve parada perto de um posto de gasolina ao lado da pista e percebi que diversas pessoas tinham armas, que não eram, mas sim metraladoras e escopetas.
Essa imagem, numa foto tendenciosa – como as que são colocadas nas revistas –, poderia indicar o início de uma guerra, mas a realidade é que até mesmo aquelas pessoas que levavam armas eram simpáticas e educadas. Era uma cena peculiar e, de certa forma, estranha também. De toda forma, não fiquei aí para ver como eles usavam suas armas e segui em frente, na direção de Lahore, a 2ª maior cidade do país.
Na medida em que eu me aproximava de Lahore o trânsito ficava cada vez mais caótico, mas mesmo assim, sem buzinas. Ao entrar na cidade, eu sabia que seria bom ligar para o número de telefone que haviam me dado, mas para isso seria bom conseguir um telefone. Como eu já previa aqui não há telefones públicos e a melhor saída seria comprar um novo chip telefônico para mim e já ter um número paquistanês também.
Estava perdido na cidade e não tinha a menor idéia de que direção eu tinha que tomar, assim resolvi apenas procurar uma loja de celular. Em meio à confusão das ruas foi um pouco difícil me deslocar de um lugar para o outro, mas num tempo menor do que eu previa eu já tinha meu número de celular do Paquistão, por uma quantia equivalente a 6 Reais. Com o telefone funcionando eu resolvi ligar para o número que eu tinha e – sem me surpreender – descobri que o número estava desligado.
Era hora de mudar os planos. Seria bom eu ir para algum hotel da cidade. Segui então para um hotel que é uma instituição na cidade e creio que mais de 90% dos turistas estrangeiros ficam nele quando em Lahore. Vi o nome da rua e fui perguntando pelo caminho. Ao contrário da Índia, as pessoas aqui me informavam com todo o carinho e pareciam realmente preocupadas comigo. Fiquei feliz com isso, mesmo quando eu não entendi nada da informação que eles estavam me dando em urdu (idioma local).
Em pouco tempo e depois de poucas ruas eu cheguei ao local, que à primeira vista, não parecia nada agradável. Localizado numa rua pequena e suja, com apenas uma pequena porta que dizia o nome do hotel: Regale Internet Inn. Depois da porta havia um jogo de escadas que já levava para o 2º andar do prédio. Assim deixei a bicicleta no lado de fora e subi para conferir o lugar.
Os quartos estavam cheios e só havia algumas camas no dormitório. Isso não era um probelma para mim, o mais difícil mesmo foi levar a bicicleta e os alforjes para cima. Depois foi tudo tranqüilo. Conheci o dono do local, Malik, e fui aos poucos conhecendo todos os hóspedes e até mesmo os moradores do local, gente que parece que chegou para ficar. Quando arrumava minhas coisas no quarto para 6 pessoas conheci um casal canadense que estava por alí e depois 3 viajantes da Islândia, o que é realmente difícil de ver, já que este país tem apenas 300.000 habitantes.
Com os islandeses eu saí para comer. Eles eram muito simpáticos e naquele momento já estavam há mais de uma mês no Paquistão, onde ficaram em Karachi, inclusive durante o incidente da bomba. Eles não estavam apenas viajando, mas sim a procura de um outro lugar para viver, já que a Islândia parecia não agradá-los. Tudo indicava que eles não sairiam mais do Paquistão e agora eles estavam apenas escolhendo um lugar para montar uma casa.
Depois de tanto tempo de Índia, o Paqusitão parecia um milagre em meu caminho. Limpo (comparando com a Índia), sem buzinas, com pessoas educadas e até mesmo carne de vaca, era tudo o que eu queria. Podia até mesmo comer sem me preocupar tanto como na Índia, onde não me lembro de ter comido algum prato sem uma cabelo, mosquito ou algo que eu não consegui identificar. Parecia que meu caminho estava mudando e para melhor.
Quarta-feira (31 de outubro de 2007)
Lahore
Lahore pedia alguns dias para ser conhecida. Aparentemente não havia muita coisa para ser vista nesta cidade de 12 milhões de habitantes, mas fazia tempo que eu não me sentia tão bem como na hospedagem onde eu estava. No pequeno hotel onde eu estava já conhecia quase todos e me sentia em casa, o que eu poderia fazer era aproveitar um pouco dessa boa sensação que eu não conseguia sentir na Índia.
Hoje eu tirei o dia para ver alguns locais da cidade, o que eu queria fazer logo pela manhã, mas no começo do dia de hoje eu descobri que o comércio aqui abre apenas por volta das 10 horas da noite, o que fez que eu demorasse para encontrar um mercado aberto para comprar meu café da manhã. Somente depois disso é que eu saí, com rumo à cidade velha, aonde está localizado o Forte de Lahore.
Ao chegar no local tive uma surpresa, ele estava fechado. Não fazia sentido, ele não fechava para almoço, tampouco para siesta, mas os policiais não estavam deixando ninguém entrar. Perguntei o que estava acontecendo e eles disseram que algum político americano estava alí dentro e enquanto ele estivesse alí, ninguém poderia entrar. Como não tinha escolha, fui para o parque da cidade, logo à frente do forte, para esperar o tempo passar.
Alí vi muita gente e muitas dessas pessoas vinha conversar comigo. Nessas conversas eu fui descobrindo que o paquistanês, ao contrário do que a mídia diz, é um sujieto muito bom. Eles acreditam que a Índia é uma país bom e não tem nada contra os Estados Unidos, o que me chamou muito a atenção. Já os indianos nunca falam nada de bom do Paquistão e os americanos vêem o país como o novo celeiro de terroristas do mundo. Era interessante descobrir um pouco mais do Paquistão.
As conversas foram interessantes e me senti bem com os paqusitaneses, com quem fiquei conversando até os portões do Forte se abrirem somente após as 3 da tarde, quando os americanos resolveram deixar o local. O forte é um resquício da dinastia Mughal, a mesma que dominou a Índia durante séculos e levantou as construções mais famosas do país, entre elas o Taj Mahal. A idade precisa do forte não é sabida, mas o que se sabe é que sua forma atual foi dada pelo imperador Akbar, o qual transformou Lahore em sua capital em 1566.
Seguindo as mesmas linhas das construções muçulmanas encontradas no norte indiano, o Forte de Lahore, conta com diversas divisões, palácios e templos, incluindo até mesmo uma caminho para elefantes, o que era comum naquela época. Igualmente grandioso e mais elaborado que o forte está a Mesquita Badshasi (Badshasi Mosque), que foi finalizada em 1647 por Aurangzeb (filho de Shah Jahan), tornando-se uma das maiores mesquitas do mundo.
Estar alí durante o pôr-do-sol apenas deixou o lugar ainda mais especial. Vi o dia acabar diante daquela imponente mesquista e somente então voltei para a minha hospedagem, encontrando ainda mais gente que havia chegado hoje, especialmente para aproveitar a quinta-feira de Lahore, que trás uma agenda recheada de eventos Sufi – o misticismo muçulmano.
Depois de conversar com tanta gente comecei a perceber que eu não poderia simplesmente deixar o país sem conhecer a região norte do Paquistão, uma região conhecida pelas suas montanhas (as mais altas do mundo), pela hospitalidade das pessoas e por ter o maior números de geleiras (glaciares) do mundo, depois da Antártida. Pedalar seria praticamente impossível, levando em consideração o meu tempo no país, mas um ônibus poderia resolver isso. De qualquer forma, ainda tinha a quinta-feira em Lahore para decidir.
Quinta-feira (1º de novembro de 2007)
Lahore
Pela manhã eu saí com algumas missões a cumprir, entre elas encontrar o correio, uma bicicletaria, comprar uma roupa tradicional, chamada shalwar-kamiz (algo como “calça e camisa”), a qual todos os homens usam e assim eu poderia passar despercebido em algumas regiões do país, com os trajes tradicionais e minha barba de alguns meses.
Encontrar o correio foi fácil, as bicicletarias também, até mesmo as lojas de roupas não foi assim tão difícil, porém não consegui fazer nada. Algumas das coisas que eu queria enviar para o Brasil era proibido aqui no Paquistão, como um simples DVD, eu precisava pegar minha bicicleta e levá-la para a bicicletaria e as roupas que eu encontrei não eram bem aquelas que iriam me fazer passar despercebido, pois tinham tantos detalhes, que eu chamaria mais a atenção usando elas que não usando nada.
Quando eu voltei para a hospedagem já era depois do meio-dia e as pessoas já se preparavam para ir até uma mesquita da cidade para conferir uma série de apresentações de música devocional muçulmana, chamada de qawwali (desse gênero musical o maior expoente é, sem dúvida, Nusrat Fateh Ali Khan, que morreu há uma década mas deixou uma grande obra que ainda pode ser apreciada).
Depois de rodar pela cidade, com mais de 20 turistas, cheguei à mesquita da cidade, onde via de regra havia apenas homens, todos sentados, olhando apenas e, algumas vezes, 1 ou 2 dançado ao som da música que o grupo tocava. Os cantores eram muito bons e a aprensatação que deixava cada banda tocar apenas 1 música durou por mais de 1 hora. Depois das apresentações que eram retribuidas não com palmas, mas sim com uma banho de dinheiro (recolhido durante a performance) sobre os músicos, seguimos para uma sala do local, onde nos serviriam o almoço, que comemos com as mãos.
Após todo o processo, voltamos para a hospedagem, mas no meio do caminho os grupos se separaram e acabaram cada um seguindo um caminho diferente. Quando eu cheguei na hospedagem, fiquei boa parte do tempo conversando com algumas pessoas e buscando organizar algumas atividades que eu tinha que fazer, porém quando eu vi já estava com fome, saindo para comer mais uma vez e depois já me preparando para ir conferir uma outra apresentação de música qawwali, porém desta vez, num estilo mais ritualístico.
Todos nós subimos novamente nos pequenos rickshaws e seguimos até um ponto distante da cidade, numa mesquista diferente que mais parecia uma casa. Porém, mas diferente que a mesquita era o que estava acontecendo dentro dela. Uma multidão se concentrava dentro do local para ver 2 sujeitos tocarem tambores num ritmo frenético, que conduzia as pessoas para um estado de transe. Como se não bastanssem os tambores, todos alí na platéia fumavam hashish quase que sem parar, num ato que faz parte da religião deles.
Mesmo aqueles que não fumavam já estavam entrando em transe também com a repetição da música e a dança de alguns poucos, que me lembrava algo como um terrero de umbanda no Brasil. A atmosfera do local foi apenas quebrada quando um sujeito chegou alí para tocar seu saxofone. Nada contra saxofones, porém naquele momento onde apenas os tambores falavam, algo ao estilo de Kenny G. não parecia se encaixar muito bem no repertório.
O sujeito sofreu com seu saxofone, já que o som de seu instrumento era incompatível com o som dos tambores. Eles foi persistente, mas num determinado momento teve que desistir. A partir daquele instante os tambores passaram a tocar mais alto e os cigarros carregados de hashish voltaram a se tornar apenas fumaça. Entretanto, eu já estava cansado daquilo e resolvi ir embora de volta para a hospedagem e encerrar este dia carregado de misticismo muçulmano.
Sexta-feira (2 de novembro de 2007)
Lahore
Meus planos era de hoje já deixar a cidade, mas no decorrer do dia persebi que isso não seria possível, pelo menos não hoje. Após o café da manhã muita gente foi embora, já que muitos ficam na cidade apenas para conferir as noites de música e rituais antes de seguirem seus rumos. A hospedagem que não tinha mais espaço nos útimos dias e obrigava as pessoas a dormirem no terraço do prédio, agora estava quase vazia.
Despedi-me de todos e voltei para minhas missões de dias atrás. Agora segui para o correio do país e não perdi muito tempo alí. Depois fui até um bicicletaria e alinhei minha roda traseira, que havia se tornado oval após a Índia e, em conseqüencia disso, os raios estavam sempre quebrando. Arrumei a bicicleta também. A única coisa que ainda me faltava, mas que a essa altura eu já havia desistido era um traje paquistanês.
Decidi então almoçar antes de voltar para a hospedagem e durante o meu almoço eu conheci um juíz do tribunal de justiça de Lahore. Fomos conincidentemente colocados na mesma mesa do restaurante e acabamos conversando bastante, antes de encerrarmos nossa refeição e cada um seguir o seu rumo.
Pela tarde na hospedagem, busquei atualizar meus diários e fotos antes de deixar a cidade, o que eu faria amanhã mesmo de qualquer forma. Segui até a noite escrevendo e buscando algumas informações sobre o país e coisas do gênero, até que fui interrompido pela chegada de alguns músicos que iriam tocar (qawwali) no terraço do prédio. Segui então para o terraço e assisti à aprensatação dos músicos, que fizeram tudo de forma gratuita. Ao final do show eu voltei para o computador, mas acabei dormindo na frente da tela, tão cansado que eu estava.
Sábado (3 de novembro de 2007)
Lahore – Islamabad – caminho às montanhas do norte
Eu acordei cedo e logo comecei a separar o que eu levaria em minha curta viagem e o que eu deixaria em Lahore, quase tudo. Sabia que se eu ficasse em Lahore, cercado de tanta gente interessante, eu não conseguiria trabalhar e seria melhor eu sair dalí o quanto antes. E meu destino eu já havia decido, o norte do país.
Eu que me sentia em casa na hospedagem onde eu estava, passei a reparar um ponto interessante: o quanto o Paquistão é diferente da Índia. Mesmo estando tão perto há inúmeras diferenças, inclusive em relação aos seus turístas. Aqui ninguém vem em busca de mestre, atrás de resposta ou como marinheiro de primeira viagem, aqui só vem quem sabe viajar e, especialmente, aqueles que não acreditam em tudo o que a imprensa diz, porque os que acreditam tem medo até mesmo de pensar no nome deste país.
Todos os estrangeiros que eu conheci aqui tinham uma história incrível. Diversos viajando de bicicleta, de moto, de paraglider, ou mesmo vindo de países como Afeganistão e Iraque. Não havia como negar que as histórias que eram contadas nesta hospedagem eram as melhores que eu já havia ouvido. Além disso havia uma grande troca de informações entre os viajantes que quase sempre seguiam em direções opostas.
Mesmo atraído pelo ambiente eu deixei a hospedagem hoje, por volta do meio dia, com apenas uma mochila, uma bolsa e minha câmera. Segui para a periferia da cidade, até um terminal de ônibus, da onde eu tomaria um coletivo para Islamabad, a capital do país. Isso foi fácil, um rickshaw me levou até o terminal onde os ônibus saia para a capital do país a cada 20 minutos. O ônibus era muito melhor do que eu poderia esperar: ar condicionado, assentos espaçosos e tudo muito organizado.
Numa estrada perfeita o veículo percorreu quase 300 quilômetros em apenas 4 horas e meia. Parecia que algo estava errado, tudo estava muito perfeito. Quando eu cheguei em Islamabad, com a ajuda de um senhor que eu conhecera no ônibus eu tomei um táxi para a cidade vizinha, Rawapindi, aonde estava o terminal da NATCO (Northern Areas Transport Company), de onde partiam os ônibus para as regiões nórdicas do país.
Eu estava pensando em dormir uma noite em Islamabad, mas resolvi já reguir de uma vez para o norte do país e assim ganhar um dia de viagem. Ao chegar na estação de ônibus já era noite e eu não tinha almoçado e nem mesmo jantado e pelo visto iria seguir assim mesmo. Comprei então a minha passagem de ônibus, cuja saída estava marcada para as 8 da noite, para uma viagem nada fácil que prometia durar de 15 até 18 horas.
Seriam mais de 24 horas dentro de um ônibus e eu já sabia que não seria fácil, mas eu não tinha escolha caso quisesse mesmo chegar ao norte do país. Comprei um pacote de bolacha, uma garrafa de água e subi no ônibus para a longa jornada. A viagem começou bem, e eu não demorei muito para pegar no sono. O problema era que o meu assento quase não se reclinava, não havia muito espaço para as minhas pernas, espacialmente pelo fato de eu ter que levar minhas malas comigo, além do fato do sujeito de meu lado também gostar que de se esparramar.
No meio da noite eu já não aguentava mais ficar alí e numa das paradas do ônibus eu resolvi procurar algum assento vazio para tentar dormir. Sorte ou não, eu encontrei a última fileira de assentos vazia, o que deixaria eu dormir na horizontal alí. A desvantagem era que justamente no final do ônibus era onde o veículo mais trepidava e oscilava. De qualquer forma deitei nos assentos sujos e até me cobri com meu lençol, para ter mais conforto.
Dormir bem alí era uma missão quase impossível. O ônibus pulava tanto que eu constantemente voava dos assentos e algumas vezes até caia fora dele. Fora isso pela estrada havia uma espécie de controle policial rigoroso que me fazia descer do ônibus a todo o momento com meu passaporte para preencher um livro com minhas informações. Mesmo assim a viagem seguiu.
Domingo (4 de novembro de 2007)
À caminho das montanhas do norte – Gilgit
O dia nasceu e eu sabia que eu ainda tinha muito chão pela frente, pois não haviam se passado nem 12 horas ainda. Bastava paciência. Eu não tinha mais sono, mas me sentia cansado. Eu não queria dormir mais, mas não tinha o que fazer e no final das contas sempre acabava dormindo mais uma vez.
O ônibus parou mais uma vez para o café da manhã e naquele momento eu já sentia um pouco da região, incluindo a paisagem montanhosa e frio que fazia. Comi um ovo frito e um chapati, mais uma xícara de chá com leite e depois o ônibus seguiu em frente. Somente por volta das 13 horas, 17 horas depois da partida eu chegava em Gilgit, a maior cidade da região norte do Paquistão. A maior, mas mesmo assim apenas com cerca de 25 mil habitantes.
No momento que eu pisei na cidade meu pai me telefonou, senti que ele estava aflito, mais que o normal. Descobri então o porque: o Paquistão havia declado estado de emergência. Isso nunca é bom, mas eu ainda não sabia o quanto ruim isso era neste caso. De toda a forma, eu estava numa parte do país onde nada chegava, nem mesmo os conflitos políticos. Sabia que poderia ficar por aqui até a poeira baixar também, isto é, se houvesse mesmo poeira para baixar.
Busquei conversar com algumas pessoas sobre a situação política do país e todas já sabiam, mas não estavam se importando, pois sabiam que era apenas mais um jogo político de Musharraf, que é muito bem aceito pela população em geral, especialmente a população rural. O estado de emergência, apesar de deixar o país virtualmente “sem leis” não afetava o dia-a-dia das pessoas, muito menos dos turistas, que, por um ponto de vista, estariam ainda mais protegidos sob a asa deste Estado militar ainda mais fortalecido.
Alguns turistas, os que nem deveriam estar aqui, já estavam arrumando as malas para sair do país, como se todos fossem morrer. Estavam seguindo para a Índia em busca de segurança. Certo ou errados, na minha visão é mais fácil morrer de diarréia na Índia que por algum conflito aqui no Paquistão. De qualquer forma, eles estavam tomando as decisões deles. (huaauahauhaa)
Caminhei um pouco pela cidade e depois de alguns minutos eu decobri que não havia nada para ser visto na cidade, mas também descobri que as pessoas eram muito simpáticas e hospitaleiras nesta região do país, onde as pessoas tem outra fisionomia, mais parecida com a do centro asiático – Tajiquistão, Kazaquistão e outros “quistãos”. Descobri que na cidade eu poderia fazer uma trilha até perto de uma das mais altas e perigosas montanhas do mundo – Nanga Parbat, com seus 8.125 metros – ou assitir à uma emocionante partida de pólo, jogo comum na região.
A trilha seria interessante, mas iria me tomar muito tempo, assim resolvi amanhã mesmo sair da cidade, seguindo mais ao norte até um famoso vale da região, o Hunza Valley. Mas isso já parte da semana que vem.
Para ver fotos de mais paisagens clique aqui:
http://www.nohorizons.net/Countries/Pakistan/Files/Karimabad%20(2).htm
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Sunday, 23 November 2008
Maria em Lahore

Se vc pensou que eu era a unica maluca brasileira que tinha coragem pra vir ao Pak vc se enganou... existem muitass... Uma delas eh uma grande amiga minha que passou alguns dias em Lahore
Maria veio passar aguns dias aqui pra conhecer a cultura e visitar o seu amado. No aeroporto ela foi recebida por outra brasileira que mora em Lahore.
Ja ao chegar no hotel, mesmo sendo em um dos bairros mais nobres de Lahore, ela ja teve o seu primeiro choque, a LIMPEZA... ou melhor a falta dela.
segue pra vcs o chat que tive com ela:
maria says:
então
maria says:
aí eles deram uma tapeada na sujeira
maria says:
e foram embora
Carol... says:
hum
Carol... says:
ok
maria says:
daih as meninas foram tbm ( brasileira e sua sogra)
maria says:
e eu fui dormir
maria says:
aih assim, la so tem homem neh
Carol... says:
ahan
maria says:
do atendente, ao carinha q carrega a mala, ao cozinheiro, ao "arrumadeiro", ao q faz room service
Carol... says:
tudo
maria says:
isso me deixou meio tensa ficar num hotel só com homem
maria says:
nway
maria says:
lacrei bem a porta
maria says:
e fui dormir pq tava acabada e o ALi ia chegar ums 4 hs depois
Carol... says:
hum
maria says:
daih ponho pijama
maria says:
relaxo
maria says:
toca a campanhia
Carol... says:
iche
maria says:
aih eu pergunto quem eh
maria says:
um dos homenzinhos
Carol... says:
lol
maria says:
fui la, abro
maria says:
mam, is everyhting all right, do u want something else?
maria says:
e eu nervosa: yes, sleep! bye
Carol... says:
hhuhuhuhuahuhauaha
maria says:
aih fecho a porta e volto pra cama
CarolCarol... says:
kkkkkkkk
maria says:
da nem 5 min, toca a campainha
Carol... http://carolpaquistao.blogspot.com/ says:
aff
maria says:
outro homenzinho aff
Carol... says:
hahahuahuhaua
Carol... says:
eram baixinhos?
maria says:
eu levanto abro a porta
Carol... says:
com odio ne
maria says:
e ele: mam, we forgot to clean the toilet, do u want us to clean the toilet?
Carol... says:
yes tomorow haauahua
maria says:
e eu: tomorrow, man, now I want to sleep for god sake
maria says:
aih ele: ok, mam
maria says:
fui deitar
Carol... says:
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
maria says:
aih nessa hora o Ali deu um toc no cel
Carol... says:
eita
maria says:
tava falando com ele por uns 2 min
maria says:
contando a estória toda
maria says:
tocam a campainha aff
maria says:
aí eu me desespero: Ali, kct, tô com medo, os homenzinhos não param de vir aqui
Carol... says:
hihi
maria says:
aí ele: não abre a porta e diz que vc quer dormir, grita
maria says:
aí eu: ok, guentaí
maria says:
fui até a porta e berrei: plz, don´t bother,
Carol... says:
huhahauha
maria says:
I nee dto sleep!
Carol.. says:
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
maria says:
aí o homenzinho responde: oh mam, plz...open the door!
Carol... says:
lllllllololllllllllkkkkkkkkkk
maria says:
e eu meu jesus
maria says:
q porra eh essa
Carol... says:
maria says:
aih falei pro Ali no telfone
maria says:
vou abrir
Carol... says:
spray de pimenta
maria says:
fica comigo na linha
maria says:
abri a porta:
maria says:
ai tinha 2 homenzinhos sorridentes
Carol... says:
uhauahuhaauhauhahauhauahuaa
Carol... says:
hauhauhauhauhauaa
maria says:
(isso ja era quase 5 da manha)
maria says:
mam, WELCOME DRINK!
maria says:
HIHI
maria says:
hihi
Carol... says:
q tipo de bebida era?
maria says:
welcome drink = um suco quente de maça solitário num copo sujinho, no meio de uma bandeja de prata
maria says:
hihi
Carol... says:
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
maria says:
eu num me aguentei
Carol... says:
eca
maria says:
tive q rir
Carol... says:
vc bebeu??
maria says:
eu agradeci
maria says:
fechei a porta pedindo q pelo amor nao viessem com mais welcome nada, pq eu precisa de um welcome sleep
maria says:
bebi nada
Carol... says:
kkkkkkkkkkkkkkkkkk
maria says:
quem bebeu tudo no dia seguinte foi o Ali rs
Carol... says:
credo
Carol... says:
era bom?
maria says:
como q eu vou saber, diz ele q normal
Carol... says:
hauhuahuha
maria says:
sei la...pelo menos ele ja tem anti-virus pra isso neh
maria says:
tantos anos morando lá...hihi
Carol... says:
hauhauhauhauahuahuhuhahauahuaha
Carol... says:
eu pensei o mesmo agora
maria says:
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Carol... says:
eles ja tem imunidade contra essas coisinhasss
maria says:
olha, foi comédia
maria says:
eu fui dormir dando risada
Carol... says:
depois te deixaram em paz?
maria says:
ah sim
maria says:
até o dia seguinte...hihi
Carol.. says:
aff
maria says:
quando meio dia eu fui sair
maria says:
e dei de cara com 10 homenzinhos comendo na porta do meu quarto um chicken tikka fedorento
maria says:
num pratão só e todos de mãozinha aff
Carol... says:
huahuhauahuahuhauhua
Carol... says:
kkk
maria says:
meu hotel era comédia...o povo era comédia
Carol... says:
q povo loko
maria says:
e isso q no melhor bairro de Lahore...
Carol... says:
num tinham outros hospedes?
maria says:
agora, imagina um hotel meia boca...
Carol... says:
huahuahuhuahuaha
maria says:
qdo cheguei era só eu, eu acho
Carol... says:
tenho ate medo de pensar
maria says:
depois foi chegando mais gente
maria says:
aí eu parei de ser o centro das atenções...mashallah kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Carol... says:
amem
Carol... says:
hahauahuhauha
Carol... says:
welcome drink foi o pior
maria says:
eu ate hj do risada lembrando aff caa uma, viu
Carol... says:
afff
maria says:
ahhh
maria says:
teve outra estória funny
Carol... says:
conte
maria says:
no dia q eu saí com o jd pra almoçar e fazer compras
maria says:
a gente foi no mac
Carol... says:
hum
maria says:
primeiro susto é a porta com detector de metais
Carol... says:
wow
maria says:
daí blz
maria says:
a gente comeu e tal
maria says:
depois de sair de la
maria says:
deu uns 5 min
maria says:
a gente andando e me deu vontade da fazer xixi: JD, preciso ir no banheiro!
Carol... says:
eita
maria says:
ele: mas, agora? a gente acabou de siar do mac donalds, meu deus, pq num foi la?
Carol... says:
uhauhauhaha
maria says:
aih eu disse: pq deu vontade de fazzer xixi agora ueh, preciso ir urgente num banheiro!
Carol... says:
loka
maria says:
aih la vai a gente procurar um lugar
Carol... says:
nossa....
maria says:
aih na avenida tinha uma galeria
maria says:
com lojas de tecidos
maria says:
um predio grandinho (mais detector de metal, q eh em todo lugar)
maria says:
aih entramos e ele foi perguntando
maria says:
aih falaram q no primeiro andar tinha
Carol... says:
nossa, super seguro entaum..
maria says:
num sei Carol
maria says:
eu me pergunto, seguro pra que?
Carol... says:
melhor pensar positivo
maria says:
se um homem bomba explodir na entrada, o detector num serve pra pn aff
maria says:
nway
Carol... says:
auhauhauhaua
Carol... says:
explica isso pra eles
maria says:
hihi
maria says:
nway
maria says:
subimos e tal
maria says:
e eu ja correndinho
maria says:
entrei desesperada no banheiro
Carol... says:
ai
maria says:
primeiro choque: uma velha em shalwar kameez deitada no chão da entrada dormindo
maria says:
passei por cima dela suspendendo meu vestidão
Carol... says:
como assim???
maria says:
corrida com obstáculos =d
Carol... says:
huahhauahahua
maria says:
hihi
Carol... says:
affffffffffffffffffffff
maria says:
nway
Carol... says:
durmindo no chaooo??/
Carol... says:
aiii
maria says:
abro a porta do banheiro e afeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee
maria says:
amiga, só tinha um buraco
Carol... says:
hahahuhauhauah tipico
maria says:
passou a vontade de fazer xixi na hora, por 5 min
Carol... says:
nossa
maria says:
na velocidade q entrei voltei
maria says:
olhei pra cara do Jd quase chorando: JD não vou fazer xixi no buraco! SAD
maria says:
aih ele caiu na gargalhada
Carol... says:
tenho medo desses banheiros, toda vez q saio levo lenco umidecido, papel etc... so uso em casooo de extremaaaaaaa emergencia
Carol... says:
huhauahauhauhauhahauhauha
maria says:
depois de rir por 5 min, foi atrás de um "banheiro com assento" pra mim
maria says:
ai achamos
maria says:
que alívio
maria says:
só q no toilet paper
Carol... says:
tem q mirar, se esquilibrar, segurar a roupa... ufi eh mta funcao
maria says:
aí tinah umas gurias se olahndo no espelho
Carol... says:
aff
maria says:
e perguntei: vcs sabem onde eu pego papel higienico?
Carol... says:
pak bitchs
Carol... http://carolpaquistao.blogspot.com/ says:
lol
maria says:
aih elas olharam com cara de choque e me falaram: mas, a gente sua a ducha q ta do lado!
Carol... says:
ahuahauhauhauhauhaa
Carol... says:
so vc mesmo
maria says:
aih realmente, olhei direito e tinha uma ducha ao lado aff
Carol... says:
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
maria says:
mas, e dai, perguntei, como faz pra secar?
Carol... says:
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Carol... says:
num creio q vc perguntou issooooooooooooooooooo
Carol... says:
hauauhauhauhauhauhauhaauhaa
Carol... says:
imagino a cara delas...
maria says:
aí elas se entreolharam e me olharam, daí uma delas falou: naturally
Carol... says:
huauhauhauhauhuahauhauhauhuhauahuhauhuahuahauhuahaa
Carol... says:
da uma chaqualhadinha oras
Carol... says:
se mataaa
maria says:
depois dessa, eu desisiti, fiz meu xixi, joguei a ducha e fiquei chacolhando o corpo uns 3 min ate me sentir mais ou menos seca
maria says:
hihi
maria says:
foi o q eu fiz =d
maria says:
hihi
Carol... says:
eeeeeeeeeeeeee
Carol... says:
naturally eh otimo
maria says:
aff, cada uma, viu
maria says:
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Carol... says:
ainda mais pq elas so usam calcinhas no periodo, entam batee um arzinho e seca fast fast
maria says:
ah eh?
Carol... says:
ne..
maria says:
aff, cada uma
Carol... says:
nem me fala
maria says:
bom, mas a gente se diverte, né...rs
Carol... says:
nem me fala
Carol... says:
e riu sozinha toda a hora, queria ter uma camera 24hrs por dia
Carol... says:
aqui eh mto surreal
maria says:
rs
maria says:
as pessoas fazem coisas sem noção e não tem a mínima percepção que é sem noção
Carol... says:
e vai falar... eles acham q eh a maior bobeira
maria says:
é o Portugal asiático =d
Carol... says:
hhuahauhauhauha
Carol... says:
eu falo falo falo
Carol... says:
eles num ligam e digo vc vai ter uma doenca e vai morrer ai eles entendem ahauhau
Carol... says:
ou vc vai perder os dentes se num usar o fio dental...
Carol... says:
sou dramatica
maria says:
hihi
maria says:
eu dei kilos de fio dental pro Ali
the end
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