Wednesday, 11 November 2009

Diários do Paquistão: vizinhos da Mesquita Vermelha

O jornalista Robert Fisk, um dos maiores correspondentes da atualidade, disse que o Paquistão é hoje o lugar mais perigoso do mundo. O fato do vigia da nossa pensão ter uma espingarda calibre 12 empunhada o tempo todo vai nesse sentido

Por Leonardo Sakamoto

Islamabad - Há dois dias, o Paquistão e a Índia comemoraram os 60 anos de sua independência da Inglaterra. Mas, apesar das festividades nas ruas, o clima ainda é de tensão por aqui. (2007)

Nos últimos meses, cresceu a oposiçao ao presidente Pervez Musharraf devido à sua proximidade com a administração Bush. Os Estados Unidos têm nele um parceiro estratégico para a guerra que vêm promovendo no Afeganistão desde o 11 de setembro e que levou à destituição do regime dos Talebans, ao início da caçada frustrada a Osama Bin Laden e ao massacre de milhares de civis.

A quase totalidade do Paquistão (97% da população) é muçulmana. Musharraf está sendo pressionado, de um lado, por grupos islâmicos que querem que o governo se afaste dos Estados Unidos e, por outro, pelo próprio governo e parlamento norte-americano, que quer estender a "guerra ao terror" ao território paquistanês. O governo daqui seria permissivo demais com grupos tribais localizados na faixa de fronteira próxima ao Afeganistão que dariam suporte aos Talebans e à Al Qaeda.

No dia da independência, membros do governo paquistanês repudiaram as declarações dos EUA, afirmando que todas as medidas seriam tomadas para evitar que a soberania fosse ferida. Uma lembrança indireta que o país possui arsenal nuclear e poderia usá-lo.

No dia 10 de julho, o governo paquistanês ordenou a invasão à Mesquita Vermelha, onde grupo muçulmanos de oposição e pró-Taleban haviam se entrincheirado. Estimativas oficiais falam em pelo menos 100 mortos, muitos mulheres e crianças, mas organizações internacionais dizem que o número pode ser muito maior.

A esse massacre, seguiu-se uma série de atentados terroristas em Islamabad e em outras regiões do país, que causaram mais de 200 mortos até agora. Estamos em uma pensão em Islamabad a alguns quarteirões do local do massacre. A orientação é para não se aproximar daquela região. Estrangeiros que moram na cidade falam de um clima de tensão e desconfiança após os massacres. Musharraf quase decretou Estado de Emergência mas, por enquanto, desistiu da idéia.

Hoje, confrontos entre o exército e grupos islâmicos, deixaram, pelo menos, 32 mortos.

Há outros problemas também enfrentados pelo Paquistão. Estamos na época de monções, ou seja, de grande calor e chuvas torrenciais. Karachi, antiga capital e para onde nós vamos no domingo, na costa do oceano Índico, estava com parte de sua área submersa por dois metros de água.

Isso sem contar a eterna disputa com a Índia pelo controle da Caxemira, ao Norte, que há décadas faz mortos nos dois lados.

Tudo isso me lembra o jornalista Robert Fisk, um dos maiores correspondentes da atualidade, que disse que o Paquistão é, hoje, o lugar mais perigoso do mundo. O fato do vigia da nossa pensão ter uma espingarda calibre 12 empunhada o tempo todo vai nesse sentido.

O fato é que o Paquistão está em ebulição, seja na política, seja nas suas florescentes organizações de trabalhadores, e com certeza, ele não será mais o mesmo.

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