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Friday, 21 August 2009

Diário de Viagem - Semana 4

Diário da Viagem ao Paquistão- Quarta e última Parte

Segunda-feira (19 de novembro de 2007)
Bahawalpur – perto do vilarejo de Bela Khan (102 km)


O que eu iria encontrar pelo caminho a partir de agora era imprevisível. Desta vez eu não conhecia mais ninguém para me dar um teto ou um prato de comida e sabia que contar com a sorte que eu tive em Multan não era uma boa idéia. Apenas poderia me preparar para acampar em algum lugar pelo meio do caminho e levar comida para alguns dias comigo.

Pela manhã eu deixei Bahawalpur por uma estrada bastante diferente da que eu me acostumei a percorrer aqui no Paquistão, desta vez o caminho era ruim e com muitos buracos e defeitos. Pensei que o caminho seria assim até eu chegar ao meu destino, mas por sorte estava enganado. Depois de 10 quilômetros eu entrei novamente na autopista (National Highway n. 5) e voltei a pedalar da forma que estou acostumado.

Mais uma vez contei com a sorte e com a ajuda dos caminhões que pasavam ao meu lado e por vezes geravam o “vácuo” que eu precisava para escapar do vento e desenvolver uma velocidade boa. Com isso, consegui passar pelo caminho monótono e desértico mais rápido até um momento que acreditei estar na metade do caminho até a próxima cidade e resolvi parar para acampar num posto de gasolina do caminho.

Procurei um posto grande, 24 horas e com um segurança. Quando encontrei pedi para acampar no pequeno gramado no fundo do posto de gasolina, que ficava levemente afastado da estrada, por onde passavam os caminhões mais barulhentos que eu já vira. A princípio tive bastante sorte, o posto era bom, tinha um banheiro limpo e não fazia muito frio, o suficiente para eu não precisar tirar meu equipamento de frio da mala.

Depois de uma banho frio e comer no restaurante que ficava a poucos metros do posto de gasolina eu entrei em minha barraca e somente por volta das 9 horas da noite eu resolvi dormir. No entanto, descobri que mesmo estando numa região seca e desértica, a noite era fria e úmida. Fui obrigado a colocar a segunda capa da barraca e até mesmo a entrar no meu saco de dormir para completar a barulhenta noite.


Terça-feira (20 de novembro de 2007)
Perto do vilarejo de Bela Khan – Sadiqabad (104 km)


Acordei cedo, porém sabia que teria que esperar um bom tempo até a minha barraca secar. Da forma que ela estava eu não conseguiria guardá-la. Aproveitei o tempo para tomar um café da manhã e guardar tudo enquanto esperava a barraca secar. Nesse meio tempo, entre acordar e partir, eu vi uma caminhão carregado de óleo diesel chegar no posto e ter a válvula que controlava a saída do combustível estourarda. Isso resultou num banho de diesel em alguns homens que tentavam controlar o desastre e numa pequena piscina no chão do posto.

Após o show eu já estava coma barraca seca e pronto para guardá-la. Mais alguns bons minutos e pronto, tudo certo para ir embora. Subi na bicicleta e segui na direção de Sadiqabad, a próxima cidade de porte médio em meu caminho. Pensei que o caminho seria fácil com o dos dias anteriores, mas me enganei. O vento soprou contra mim hoje e os caminhões não foram tão amigos quanto os dos dias anteiros.

Meu início tardio resultou numa chegada igualmente tardia. O caminho foi monótono e igual ao dos outros dias, exceto pelo fato de hoje eu ter visto não apenas um caminhão tombado na pista, mas sim 3 e outros veículos batidos. Fora isso o caminho foi feito de deserto e poeira. Quando cheguei em Sadiqabad, queria apenas encontrar um hotel para passar a noite e ter um bom descanso.

Perguntei para um sujeito que falava inglês onde poderia encontrar um hotel e ele me indicou 2. Melhor do que isso, mandou um de seus funcionários me levar até o hotel mais próximo. Pelo caminho logo descobri que o funcionário além de não falar inglês (até aí tudo bem), não tinha a mínima idéia de onde ficava o hotel e também era completamente analfabeto (assim como boa parte da população do Paquistão). O resultado da ajuda do funcionário foi nulo, já que além de tudo ele me levou para um hotel que não aceitava estrangeiros.

Percebi que eu estaria melhor sozinho que acompanhado por aquele sujeito que parecia mais perdido do que eu. Segui então para o centro da cidade com a esperança de encontrar um lugar para passar a noite. Logo encontrei o que queria e este hotel sim aceitava estrageiros, provavelmente o único da cidade que fazia isso. Instalei-me alí e depois segui para um restaurante para comer e descansar para continuar minha jornada pelas estradas do Paquistão.

Quarta-feira (21 de novembro de 2007)
Sadiqabad – Ghotki (91 km)


Logo que acordei ao som de marteladas, serras, buzinas e jumentos debaixo da minha janela, localizada no centro de Sadiqabad, percebi que seria bom não perder muito tempo iniciar minhas atividades. Minha prioridade hoje era arrumar a roda da minha bicicleta que havia tido um raio quebrado ontem logo que entrei nesta cidade. Tomei um dos raios reservas que levo comigo, que por sinal já estão acabando e desci até uma espécie de sala de motores onde eu havia sido obrigado a colocar minha magrela.

Alí troquei o raio quebrado e descobri que havia mais alguns probremas na roda. Enfim, arrumar tudo e alinhar a roda me tomou mais de 30 minutos e só então eu podia ir tomar meu café da manhã. Não sei porque, mas eu já não aguento mais tomar o café da manhã daqui. Nada contra chapatis e vegetais apimentados, mas creio que meu corpo está pedindo algo mais com a cara do que eu comia no Brasil: um pão francês, queijos, yogurt e frutas.

Como eu sou obrigado a comer o que tiver para poder pedalar, eu saí para as ruas em busca de algo. O pão de estilo europeu e o queijo eu não encontrei, mas já sabia que não encontraria – ainda mais em Sadiqabad. O yogurt eu também não encontrei, mas poderia haver em algum canto da cidade. Por fim, encontrei frutas, que não existem numa variedade enorme como no Brasil, mas sempre tem uma cara boa. A frutas que sempre há por aqui são: banana, um tipo de mexerica, uma goiaba que tem forma de pêra (é verdade), maçãs e a favorita deles, romã, que não tem comparação com a pobre romã que eu via no Brasil. Aqui a romã tem quase um tamanho de um côco pequeno, tem uma cor viva e conta com sementes bastante suculentas.

Com o que eu enontrei, fiz meu café da manhã com frutas, incluindo uma romã, que de tão grande deu até trabalho para comer. Ao final da minha refeição e de arrumar tudo para seguir viagem já era próximo das 10 da manhã, mas eu tinha a vantagem de ter que pedalar menos de 100 quilômetros hoje. Pela pobreza das ruas desta cidade eu cheguei até a auto estrada e logo me deparei com o que seria o meu maior problema hoje: o vento contra (mim).

Nenhum momento da pedalada foi fácil e eu nem tinha idéia da onde iria chegar. Havia apenas visto um pequeno povoado chamado Ghotki no mapa e achei que seria uma boa ficar por alí hoje. Com minha velocidade comprometida devido ao vento que me segurava de forma incrível, segui de forma mais lenta e parei algumas vezes para descansar. Minha salvação foi entrar atrás de um lento caminhão que passava na estrada e seguir atrás dele, protegido do vento.

De toda a forma, minha pedalada nesta região árida do país foi mais demorada que o normal no dia de hoje. Cheguei em Ghotki próximo do final da tarde e percebi que o local era mesmo pequeno e não contava com estrutura alguma. Para a minha sorte, depois de pedalar um pouco pelo local eu encontrei um pequeno hotel na beira da estrada, já na saída da pequena cidade.

Não era um local exemplar, mas era suficiente para uma noite e para não precisar montar minha barraca. No final da tarde já fazia frio e eu tomei uma banho rápido para então cair na cama e me preparar para descansar e continuar minha pedalada até a cidade de Sukkur amanhã.

Quinta-feira (22 de novembro de 2007)
Ghotki – Sukkur (61 km)


Ao começar o dia de hoje eu percebi que já estava cansado de pedalar sem parar por tantos dias. Precisava de um descanso e esse descanso eu me daria em Sukkur minha próxima parada. Mesmo assim o descanso teria que ser curto, pois meu visto para o país estava acabando eu precisava chegar até Quetta para estendê-lo e ganhar mais alguns dias no país o que seria suficiente para terminar minha pedalada por aqui.

Depois de um café da manhã de frutas e um chapatti eu segui para a estrada, que passava na porta da hospedagem onde eu estava ficando. Alí percebi que não me falatava muito para chegar em Sukkur, quase 60 quilômetros e isso seria bom para mim, que já estava cansado. O ruim foi que o vento ainda seguia contra mim e não me dava nenhum descanso pelo caminho. Hoje eu já não tinha nem mais energia para acelerar e conseguir entrar no “vácuo”da traseira de uma caminhão. Contentei-me em seguir num ritmo mais lento, sabendo que não estava longe de meu objetivo.

Como havia saído cedo de Ghotki eu consegui chegar não muito tarde em Sukkur, onde demorei para encontrar um hotel, já que a cidade era dividida e contava com o lado pobre, de hotéis baratos, mas completamente insalúbres, e o lado menos pobre, de hotéis melhores, porém caros. Percebi que ficar no lado pobre seria um desafio e para descansar (a única coisa que eu queria) seria quase impossível. Segui então para o lado menos pobre, onde consegui negociar um preço melhor em uma das hospedagens e então ficar por alí por uma noite.

Comi bem hoje, descansei e planejei minha ida até as ruínas de Moenjo Daro, que ficava numa cidade próxima de Sukkur, aonde eu iria de ônibus amanhã.

Sexta-feira (23 de novembro de 2007)
Sukkur – Moenjo Daro – Sukkur (ônibus)


Hoje não coloquei o despertador para tocar e despertei um pouco mais tarde, mas ainda a tempo de seguir para Moenjo Daro e ver um pouco das ruínas dessa civilização de mais de 5000 anos. Logo pela manhã percebi que não seria fácil chegar lá. Do meu hotel tive que tomar um rickshaw até o terminal de ônibus, a cerca de 5 quilômetros de distância. Depois tomei um ônibus até a cidade de Larkana, base da família Bhutto e localizada a apenas 30 quilômetros de Moenjo Daro.

Quando cheguei em Larkana, depois de 1 hora e meia de viagem, tive que tomar outro pequeno táxi até o local da onde saiam os veículos para Moenjo Daro. O problema foi que no caminho o taxista encucou que eu tinha que ir até a polícia para obter um guarda-costas e depois segui para onde eu queria. Ele parou numa delegacia e os policiais deram risada da cara dele e o mandaram para outro lugar. No outro lugar o policial fez uma cara de “saco-cheio” e disse que eu poderia ir sozinho que a escolta policial seria me dada em Moenjo Daro.

Segui então para a van lotada, que levou 1 hora para percorrer os 30 quilômetros que separavam as duas cidades. Quando em Moenjo Daro, os policiais me chamaram para a sala deles, onde eu teria que preencher alguns papéis e pegar meu policial guarda-costas. Conversei com os policiais, que gostaram da minha barba muçulamana, e depois de alguns minutos eles me disseram que não havia problema com brasileiros e me deixaram seguir sem ninguém, para a minha alegria.

Conversando com as pessoas descobri que agora, que seria o pico da estação turística do país, eu havia sido o único turista da semana toda. Todos os estrageiros haviam fugido do país com medo de algum conflito e os que haviam planejado vir, mudaram de idéia após o Estado de Emergência declarado por Musharraf há pouco tempo. Em outras palavras, eu tinha as ruínas de Moenjo Daro quase que só para mim.

Não precisei de muito tempo para percorrer todo o local e depois de 3 horas alí já era hora de voltar para Sukkur, pois sabia que a viagem de volta também seria longa. Assim dei início ao retorno. Um rickshaw até o cruzamento das vans. Uma van até Larkana. Um rickshaw até o terminal de ônibus. Um ônibus até Sukkur. E um rickshaw até o hotel onde eu estava. Enfim, o passeio durou o dia todo, sendo que eu passei mais horas dentro dos desconfortáveis transportes que nas ruínas em si.

Agora eu tinha que deixar tudo pronto para segui na direção de Quetta amanhã ainda.

Sábado (24 de novembro de 2007)
Sukkur – Shikarpur (44 km)


Já me sentia bem para pedalar novamente e não levei muito tempo para deixar tudo pronto para seguir em frente. Como não queria perder muito tempo para me organizar, pedi um café da manhã do hotel. Esta simples refeição demorou mais que o normal e não foi nada de especial, mas o suficiente para me alimentar para uma boa pedalada.

Depois de comer eu já tinha tudo pornto para seguir em frente. Fui então para a estrada, onde tudo parecia normal. Em pouco mais de 1 hora de pedalada, comecei a sentir uma forte dor no estômago e não sabia o que era. Achei que poderia ser pelo café que eu havia tomado, mas na medida que a dor foi crescendo eu percebi que se fosse o café ele deveria estar estragado.

A dor foi se tornando tão intensa que eu já não conseguia pedalar. Fui obrigado a parar então na beira da pista, sentar no chão e apenas ficar parado, percebendo que eu tinha um grande problema agora. Quando levantei senti uma forte tontura e ânsia de vômito. Achei melhor vomitar aquilo que estava me fazendo mal e vomitei, mas não tanto quanto eu esperava e, aparentemente, longe do necesário também.

Subi na bicicleta mais uma vez e com a velocidade extremamente baixa eu segui em frente. Quando cheguei numa bifurcação não sinalizada eu resolvi parar no posto de gasolina e perguntar qual era o caminho para Jacobabad, onde eu queria chegar. Eles disseram que era o da direita. Perguntei então se eles tinham água, eles então perceberam que eu não estava bem e disseram que iriam me trazer água. Sentei então numa cadeira e esperei.

Quando a água chegou eu tomei boa parte da garrafa num gole só e depois deitei numa cama suja que eles havia trazido para mim. Acabei dormindo alí e quando levantei minha ânsia estava ainda mais forte, assim como as dores que eu sentia no estômago. Percebi que era hora de vomitar. Desta vez eu vomitei tudo ou quase tudo. Mas junto com o vômito, veio também uma diarréia. Nesse momento tive que admitir que eu não chegaria em Jacobabad hoje. Teria que ficar por Shikarpur e seguir viagem pela manhã.

Perguntei se havia algum hotel na cidade e eles disseram que sim, porém como turista, eu era obrigado a ser escoltado por policiais nesta cidade. Assim, eles ligaram para a polícia, que chegou em pouco tempo e me conduziu até a delegacia da pequena cidade. Na delegacia que parecia mais uma mercado de peixe, eu preenchi meus dados em algumas folhas e depois tive que esperar um policial chegar para me conduzir até o hotel, localizado a 50 metros da delegacia.

Devo confessar que aquilo não era nada agradável. Eu não podia ir para lugar algum sem o policial e eles eram chatos. O hotel era uma porcaria e sujo e os policiais ficavam a cada 5 minutos batendo em minha porta ou entrando em meu quarto. Um deles até arrombou a porta do meu quarto, para meu susto, pensando que um grito que ele havia escutado viera de dentro do quarto que eu estava. Bem, em resumo, a noite não foi fácil.

Eu que não tinha apetite algum, me contentei em comer algumas tangerinas e bananas, para então guardar minhas energias para conseguir deixar a cidade ainda amanhã.

Domingo (25 de novembro de 2007)
Shikarpur – Jacobabad (41 km) – Quetta


Às 6 da manhã os policiais já batiam à minha porta, o que me fez despertar nenhum um pouco feliz. Falei para eles pararem de bater na porta e que eu já iria começar a arrumar tudo para ir embora em pouco tempo. Depois de mais algumas dezenas de batidas na porta e de entrarem no quarto, eu estava com tudo pronto para seguir viagem.

Não me sentia muito bem, mas sabia que poderia pedalar um pouco. Mesmo assim, um veículo chegou até a porta do pulgueiro onde eu estava ficando e me obrigou a colocar a bicicleta na caçamba da caminhonete dele. Como não tinha escolha, coloquei. Ele então deu uma volta pela cidade e quando chegou na estrada, esperou um outro policial chegar e me levar escoltar até Jacobabad.

Este oputro policial estava de moto e me deixou pedalar. Assim, eu pedalei até Jacobabad, cerca de 40 quilômetros, o que não foi uma boa idéia, já que eu ainda não estava em condições de pedalar longas distâncias, devido à minha saúde. Quando chegamos em Jacobabad, os policiais disseram que me levariam até Quetta. Assim, eu pedalei até o limite onde eu poderia pedalar, a fronteira com o Balochistão. O motivo disso era simples, a 2 dias atrás foi morto um dos líderes e guerrilheiros da região, chamado Balach Khan Mari, parente de Nawab Akber Khan Bhugti, que foi morto no ano passado, pelas tropas do exército paquistanês. Isso resulou e resulta numa certa instabilidade na região que se opõe a Musharraf e se envolve em conflitos com os militares.

Da fronteira em diante, coloquei minha bicicleta na caçamba de uma caminhonete e segui em frente. Pensei que eles me levariam diretamente até Quetta, que estava a mais de 300 quilômetros dalí, mas percebi que não. A cada 10 quilômetros, eles faziam a troca, ou seja, eu tinha que pular de uma caminhonete para outra com minha bicicleta. Aquilo não era nada agradável, pois o tempo perdido em cada troca não era pequeno, sendo que em cada veículo havia 4 ou 5 policiais e nenhum deles me ajudava.

Depois de 7 caminhonetes e cerca de 50 quilômetros, eu percebi que aquilo era a coisa mais imbecil que eu já tinha visto. Apesar dos policiais não falarem inglês eu tentei me comunicar com eles para que eles me deixassem num ônibus direto para Quetta, o que seria menos doloroso que ficar trocando de veículo a cada 10 minutos e agüentando os policiais, o que talvez fosse o pior de tudo.

Eu já havia pedido isso antes, mas eles apenas havia me dito que me levariam até o terminal de ônibus, mas não levavam. Tive a impressão que eles gostavam de conduzir turistas pela estrada. Mas desta vez, estes policiais me levaram até o terminal de ônibus, que era no meio da estrada, no meio de uma cidade e no meio de um mercado de frutas, ou seja, algo completamente caótico. Os sujeitos do ônibus colocaram minhas malas e bicicleta no topo do veículo e quando eu entrei no ônibus percebi que não havia lugar para mim a não ser também no topo do ônibus.

Fui para cima e ganhei uma vista incrível enquanto viajava os 300 quilômetros que me separavam de Quetta. De cima do ônibus, eu pude ver o porque da polícia não deixar ninguém viajar sozinho pela região. O local é completamente deserto, para onde se olhe só se vê pedras e terra, nada mais. Até mesmo as cidades que me mapa mostrava, não era mais que um conjunto de casas feitas de barro. Percebi que mesmo sem os perigos dos terroristas, eu teria bastante trabalho para pedalar por alí.

A viagem durou cerca de 5 horas e somente do final do dia eu cheguei em Quetta, um pouco perdido nesta cidade fria, de pessoas bastante peculiares. Não há ninguém na rua que não use algum pano ou um tipo de chapéu diferente em sua cabeça. O motivo disso é simples, a população é simples e, basicamente, de origem tribal, como quase todo o Balochistão, região dividida entre o Paquistão, Afeganistão e Irã.

Fui então para o centro da cidade, onde para procurar um lugar para ficar dentro das noites frias de Quetta. Encontrar hotéis foi fácil, porém encontrar um para ficar foi mais difícil. Não sei porque, mas muitos deles estavam lotados (ou simplesmente disseram que estava lotados porque não queriam turistas e outros eram ruins de verdade, quase que indianos). Depois de diversas tentativas encontrei um lugar razoável para ficar, onde apenas coloquei minhas coisas e depois saí para comer.

Encontrei um restaurante bom e resolvi comer um peixe frito, o que parecia ser uma boa idéia. Comi bastante e logo percebi que era cedo demais para fazer uma refeição como essa, depois de todos os problemas que eu havia tido. Ao voltar para o hotel eu já não me sentia bem, mas o cansaço logo me levou para a cama e apenas adiou os efeitos desta pesada refeição.

Segunda-feira (26 de novembro de 2007)
Quetta


Ainda na cama, não demorei a descobrir que eu tinha sérios probelmas. Logo pela manhã eu já não conseguia mais sair do banheiro, numa disenteria complicada, que estava até me desidratando, de tanta água que eu estava perdendo. Pelos sintomas que eu estava tendo percebi que o que eu tinha era um parasita chamado Giardia lambia, geralmente chamada apenas de giardia. (eu tive isso, perdi 5 kilos em uma semana)

Estava arrotando bastante, sempre com gosto de “ovo”, sendo que eu não havia comido ovo, tinha uma disenteria forte e não tinha apetite. Enfim, tinha giardia. Agora precisava saber o que fazer para acabar com o problema. Já não queria perder meu tempo indo até um médico, pois o que ele iria me receitar eu já sabia. Resolvi apenas confirmar na internet, nuns sites de medicina e pronto, já tinha meu auto-diagnóstico e meu auto-medicamento. (também fiz isso hehehe)

Precisava tomar uma dose alta de tinidazol, a mesma droga que eu tomei contra a ameba, porém desta vez numa dose única e pesada, aparentemente suficiente para acabar com o meu problema. Comprei então o remédio, comprei yogurt e alguns probiótios para ajudar a recuperar a minha flora intestinal. Agora me restava descansar e não gastar energia. Fiquei vendo televisão e depois fui para a internet ver alguns e-mails, para resumir o meu dia.

Terça-feira (27 de novembro de 2007)
Quetta – direção à fronteira com o Irã


Acordei já me sentindo melhor. A diarréia havia acabado e já não me sentia tão fraco. Sentindo-me bem resolvi solucionar os probelmas que eu tinha com o meu visto, que iria acabar amanhã, assim para ficar mais no país eu teria que estendê-lo, porém para fazer isso eu teria primeiro que saber se eu poderia pedalar até a fronteira, o que eu teria que descobrir com a polícia.

Fui então até a delegacia da cidade e perguntei para o delegado se eu poderia pedalar até a fronteira. A resposta que ele me deu, eu já esperava: não. A polícia poderia me conduzir até fornteira se eu quisesse, fazendo dezenas de trocas de caminhonetes como eu havia feito antes, por isso, eles aconselhavam todos os viajantes a tomar um ônibus e evitar problemas.

Com essa resposta eu já não tinha muito o que pensar. Não havia mais razão para estender meu visto, sendo que eu já não poderia pedalar pelo país. Agora me restava arrumar tudo para deixar o país. Quando já tinha tudo pronto, resolvi então visitar uma fundação presente em Quetta, relacionada à saúde pública do Paquistão. A chamada Fundação Maulana Muhammadumar tinha uma papel importante na saúde de Quetta e de todo o Balochistão, já que a maioria da população desse estado segue para Quetta quando precisa de atendimento médico.

Após toda esta conversa, eu tinha pouco tempo para tomar meu ônibus até a cidade de Taftan, localizada na fronteira Paquistão/Irã. O ônibus sairia às 6 horas da tarde e levaria de 10 a 12 horas para chegar até o borda do país. Às 5:30 eu saí da minha hospedagem em direção terminal de ônibus e alí percebi o que me esperava. Por fora o ônibus parecia bom, mas por dentro não era muito confortável, especialmente para uma viagem de 12 horas, de qualquer forma, era o melhor que havia para lá.

A viagem começou e logo eu percebi qual seria a maior dificuldade, a estrada. A estrada era horrível, não contava com asfalto e estava impregnadas de pedras e buracos, o que fazia o ônibus trepidar bastante e o ato de dormir um desafio para qualquer passageiro. Mesmo assim, me esforcei para dormir e quando conseguia sempre havia algo para me acordar. O motorista acendendo as luzes do ônibus de brincadeira ou colocando a música mais alto que de costume, a polícia entrando no ônibus para me fazer descer e preencher papéis que não serviam de nada ou, simplesmente, todos descendo para comer e beber no meio do deserto.

Foi nessa viagem desconfortável, fria e insalubre que eu vi meus dias de Paquistão acabarem no meio desta noite e darem lugar para uma outra parte do mundo, o Oriente Médio. Mas esta já é outra história.

The End
=)
Espero que tenham gostado

Diário de Viagem- Semana 3

Diário de viagem no Paquistão- Terceira Parte


Segunda-feira (12 de novembro de 2007)
Lahore


Apesar de ter traçado meus planos para sair de Lahore ainda hoje, fui – como de costume – pego por alguns imprevistos. Ficar acordado até as 3 da manhã para terminar minhas atualizações ontem, foi um; ter leves problemas digestivos foi o outro. Não me sentia disposto o suficiente para começar a pedalar hoje, já que eu quero inciar a pedalar sem a previsão de parar tão cedo, devido à grande distância que serei obrigado a percorrer em apenas 2 semanas.

Com mais um dia em Lahore eu aproveitei para ver o que eu não havia visto. Caminhei por outras ruas, enviei alguns postais e visitei o Museu de Lahore. Em minha caminhada vi hordas de fotógrafos, cada um equipado com 2 ou 3 câmeras, apenas esperando alguma coisa acontecer na cidade, como advogados brigando com a polícia ou Bhutto provocando tumulto ou atentados.

Fora isso, nada de novo. O clima parecia estar ficando mais tenso na cidade, com a presença de Benazir Bhutto e mensagens de grupos terroristas afirmando que vão matá-la num atentado à bomba em Lahore. A hospedagem que estava cheia de turistas quando eu cheguei, 2 semanas atrás, agora já estava quase vazia e os visitantes continuavam migrando para a Índia. Apesar da leve tensão no país, eu estava decidido à atravessá-lo e era melhor fazer isso o mais breve possível, ou seja, amanhã.

Terça-feira (13 de novembro de 2007)
Lahore – Bulagary (101 km)


Não acordei com o despertador e quando despertei, mais tarde do que esperava, fiz tudo da forma mais rápida possível. Fechar as malas, comer, alongar meus músculos e despedir de todos. O problema foi que mesmo assim, só consegui sair para a rua por volta das 11 da manhã, que era tarde para iniciar um pedalada de 100 quilômetros numa época em que o dia acaba às 5 da tarde.

O melhor que me aconteceu foi que ao me despedir dos funcionários da hospedagem, comentei que iria parar numa cidade chamada Pattoki. O sujeito então disse que alí não havia nem hotel nem nada do gênero, mas ao mesmo tempo disse que morava nas proximidades dessa cidade. O melhor de tudo foi que ele disse que estava voltando para sua vila hoje e que se eu quisesse poderia ficar na casa dele por algumas noites.

Aceitei o convite e fui embora para a estrada. As ruas de Lahore não eram nenhuma maravilha e me deram bastante trabalho até sair do perímetro urbano da cidade. Somente depois de 20 quilômetros foi que a estrada começou a melhorar e se tornar mais possível de ser pedalada. A partir daí eu não parei muito, apesar das diversas pessoas que me cumprimentavam e me chamavam para conversar, tomar um chá, comer um chapati ou apenas sentar e descansar.

Parei apenas um vez no meio na estrada para comer um pouco e depois continuei. Quando cheguei em Pattoki percebi que se eu estivesse disposto a ficar por alí teria problemas mesmo. Uma cidade suja de beira de estrada, sem nenhum tipo de acomodação e lotada de gente. Segui então para a próxima cidade, chamada Habibabad, onde – segundo o mapa que Khadim havia desenhado para mim – eu deveria entrar à esquerda e seguir por alguns vilarejos até a vila de Khadim, Bulagary.

Os dias estavam cada vez mais curtos e hoje não foi diferente, às 4 da tarde o sol, já baixo, começou a se esconder atrás da imensa e espessa núvens de poluição. Às 5 horas da tarde me restava apenas poucos minutos para conseguir ver o que havia à minha frente. Foi exatamente nesta hora que eu entrei no estreito caminho para a vila de Khadim. Tive a sorte de poder contar com a ajuda de algumas pessoas que seguiram para lá de carroça e me guiaram até a vila.

Quando cheguei em Bulagary já era noite e eu não tinha a mínima idéia de onde eu deveria ir dentro daquelas ruas de terra sem nome e casas de barro. O local era maior do que eu imaginava também. Perguntei então para um garoto que passava na hora e perguntei se ele sabia onde era a casa de Khadim Hussein. Ele disse que sabia e se propôs a me levar até lá. Não precisei pedalar mais que 50 metros para chegar até a casa de Khadim. O problema foi que ele ainda não havia chegado em sua casa.

Mesmo na ausência de Khadim, a família foi muito simpática comigo me convidando para dentro da casa e me deixando a vontade, ainda que houvesse quase que apenas mulheres na casa e elas não pudessem falar comigo mesmo que soubessem falar inglês, devido à conduta imposta pela religião islãmica (mulher casada não fala, não olha e, muito menos, toca um outro homem). Tomei então um banho, coloquei meu largo traje muçulmano e esperei Khadim.

Durante minha espera chegou um amigo dele, que se indentificou como irmão de Khadim. Conversamos. Bem, tentamos nos comunicar um pouco com mímica e poucas palavras até que chegaram com meu jantar: 2 chapatis, uma porção de vegetais refogados no fogo a lenha do quintal e um copo d’água. Tinha fome para mais, mas fiquei quieto, diante da situação daquele aldeia, capaz de fazer qualquer imagem das secas do nordeste parecer um passeio no parque.

Logo que terminei de comer o amigo de Khadim, me levou para fora da casa para “me mostrar o vilarejo”. Obviamente não havia mulheres nas ruas, já era noite, no entanto parecia que todos os homens estava fora de suas casas. O agrupamento desses homens era algo curioso, sempre em volta de tipo de um nargileh (instrumento usado para se fumar tabaco) típico do Paquistão, com apenas um braço metático de cerca de um metro de diâmetro, porém numa base giratória, que facilitava a socialização da fumaça.

Apesar de dentro desse gigante cachimbo só se queimar tabaco, logo descobri que por alí as pessoas queimavam algo mais. Quase todos os homens do vilarejo fumavam hashish de forma delibarada. Seria fácil julgar esses homens que fumavam essa substância, mas depois de algum tempo com eles, percebi que eles nunca fumavam sozinhos e fora hashish eles não consumiam nenhum outro tipo de droga, nem mesmo álcool, que é mais recriminado que o próprio hashish por aqui. Caso algum deles fosse pego bebendo a metade da quantidade que um adolescente de 15 anos bebe no Brasil, aqui eles já teriam grande problemas com as pessoas, sendo tratados pelo o que a nossa sociedade chama de “drogados” e correndo o risco de ir para a cadeia.

Quando estava nas ruas desta aldeia, Khadim chegou. Com ele alí eu poderia falar com as pessoas, já que ele conseguia entender e falar razoavelmente inglês. Khadim fez questão de me levar para conhecer todas as rodas de amigos de sua aldeia, todas formadas em função do tabaco ou do hashish. Somente quando já era tarde e eu já havia conhecido quase todos os homens da comunidade, fui embora para a casa de Khadim para dormir.

Quarta-feira (14 de novembro de 2007)
Bulagary – Sahiwal (84 km)

Acordei cedo, pelo menos para o Paquistão, onde as pessoas não conseguem acordar antes das 8 da manhã e as escolas começam as aulas às 9 da manhã. Khadim já estava acordado e sua mulher já preparava o café da manhã de todos no fogão a lenha instalado no chão. Comi o mesmo que no jantar de ontem, com a diferença que hoje havia um copo de lassi, que parecia estar estragado, mas o bebi mesmo assim. Logo que acabei de comer, Khadim me convidou para dar uma volta em sua vila e conhecer a vida local.

Eles começou pela sua família, que incluindo tios, primos e todos os parentes possíveis, totalizava quase que o vilarejo inteiro. Todas as casas eram feitas de barro com tijolos, ou de cocô de vaca e barro apenas. As ruas tinham uma poeira avermelhada mais fina que talco, que subia a cada vez que um pé tocava o solo. Os búfalos saiam sozinhos às ruas, onde as cabras já estavam fazia algum tempo, onde os cachorros latiam e as galinhas fugiam das pessoas.

Depois de mostra-me as ruas, Khadim foi me mostrar novamente as pessoas, que em plana manhã já se reuniam para fumar o que fosse. Cada círculo de pessoas me oferecia alguma coisa, gerelmante um copo de chai feito com leite de búfala tirado na hora. Após os amigos, seguimos para outros pontos de interesse como a escola local, a oficina do artesão e o cemitério da vila. O mais curioso foi o cemitério, pois não havia sinal algum para identificar os túmulos, sendo todos apenas um monte de terra batida num terreno repleto de montes de terra batida.

Se eu deixasse, Khadim ficaria me mostrando a vila até a noite, mas eu tinha que ir embora, caso contrário acabaria passando a noite por alí novamente. Voltei então para a casa de onde havia deixado minhas coisas e arrumei tudo para seguir em frente. Despedi-me de todos e segui em frente, com a intenção de chegar em Harappa, mas sem saber se eu chegaria ou não.

Na estrada eu apenas pedalei em direção ao oeste, contra um leve vento e entre algumas pequenas cidades e muitos postos de gasolina, quase sempre amplos e bastante organizados. Ao final da tarde eu estava em Sahiwal, a maior cidade da região, logo antes da vila de Harappa, que era o meu objetivo. Não sabia o que eu encontraria em Harappa e nem a distância que eu teria que percorrer para chegar até lá. Com o sol em já seus últimos minutos eu resolvi ficar por Sahiwal e não arriscar uma pedalada extra.

Parei então a bicicleta no acostamento da estrada, já na parte urbana da cidade, com a intenção de pensar o que eu faria. Infelizmente percebi que pensar não seria possível alí. Em poucos minutos já havia uma roda de mais de 10 pessoas ao meu redor, todas rindo ou falando algo que eu não tinha nem idéia. Isso não era comum no Paquistão, mas estava acontecendo agora. Era um momento indiano fora da Índia (mas não tão longe de lá).

Iria ficar na cidade, mas era melhor encontrar um lugar para ficar, pois já havia percebido que não teria paz com aquelas pessoas. Parei então num hotel e logo tive a resposta padrão da Índia: estamos cheios, mesmo que as chaves dos quartos estivem quase todas alí. Nunca consegui entender o porque deles fazerem isso e gostaria de descobrir. De qualquer forma, tive que procurar outra hospedagem pela beira da estrada.

Não longe de minha primeira tentativa eu encontrei outra hospedagem, um pouco mais afastada da estrada, o que amenizava o ruído dos motores. Consegui um quarto, jantei, descobri que não havia nada para ser visto na cidade e voltei para o quarto para dormir e começar outro dia amanhã.

Quinta-feira (15 de novembro de 2007)
Sahiwal – Harappa – Lahorinwala (51 km)


Sabia que Harappa não estava longe de mim, apenas não sabia o quanto. Pedalei por cerca de 20 quilômetros e resolvi perguntar para alguém. Coincidentemente eu já estava praticamente na entrada da estrada que me levaria até a vila de Harappa e depois para o museu e sítio arqueológico de Harappa. Foram mais 8 quilômetros por entre ruas estreitas e pequenos vilarejos até chegar ao sítio arqueológico de Harappa.

Parei a bicicleta na guarita de entrada, paguei 200 Rúpias e entrei no museu, onde a fotografia era estritamente proibida. O museu não era muito significante, mas bastante interessante para mim que já havia estudado um pouco da civilização do Vale do Rio Indo, a qual é a base da população do que hoje se conhece como sub-continente.

Em poucas palavras, os registro dessa civilização datam de mais de 5000 anos atrás e mostram umas das mais avançadas civilizações da ápoca. Dessa civillização, da qual as informações ainda são bastante escassas, sabe-se que a cidade de Harappa juntamente com Moenjo Daro formavam a capital dessa civilização. Em ambas escavações formam encontradas uma arquitetura avançada, com sistema de água e esgoto, que mostrava que eles se importavam com a higiêne. Também foram encontrados diversos trabalhos em pedra e selos mostrando uma espécie de culto à natureza, animais (especialmente o búfalo) e à mulher.

Depois de meu passeio pelo museu eu segui para o sítio arqueológico que ocupava uma grande área do local. As escavações não eram as melhores que eu já havia visto, já que o máximo que conseguiram reconstituir foi a base das construções. Obviamente isso era interessante, mas estava longe de ser tão cativante como Machu Picchu ou Angkor Wat, mas havia toda a história de uma civilização atrás de cada uma daqueles blocos. Blocos que até pouco tempo estavam sendo roubados para a construção de casas e até mesmo da ferrovia que pessa perto dalí.

Após a visita ao sítio arqueológico eu voltei para a minha bicicleta e fui embora. Diversas pessoas tentaram me ajudar em relação ao caminho, mas no final das contas apenas me confundiram e eu acabei tomando o mesmo caminho que eu havia usado para chegar ao local. Quando eu voltei à estrada perguntei sobre a localização de Lahorinwala e descobri que estava mais próxima do que eu imaginava.

Poucos quilômetros depois eu já estava no vilarejo, onde perguntei sobre a casa de Mohammed Ashraf e todos sabiam me indicar. Quando cheguei na casa não sabia quem procurar, muito menos o que dizer, já que eu não falo a lingüa local, o urdu. Logo M. Ashraf apareceu e me convidou para entrar, já sentando na cama em que eu dormiria nesta noite. Por algum tempo eu fiquei sozinho, mas aos poucos chegaram mais pessoas até um ponto em que o quarto estava repleto de pessoas, quase todas olhando para a minha cara e tentando se comunicar comigo de alguma forma.

Até certo ponto isso foi bastante interessante, mas quando o relógio já marcava 11 horas da noite e todos ainda estavam alí e eu já com sono, percebi que teria que fazer alguma coisa. Fui direto e disse que queria dormir, não tinha o porque de usar um caminho mais longo para dizer isso e quase todos foram embora na mesma hora. Quase todos. Alguns sujeitos ficaram por alí ainda e só me deixaram dormir quando já era quase meia-noite. (tadinho.. porque será que no pak eles tem mania disso? dormem muito tarde, acordam também... nós somos a única diversão deles hehehehe)

Sexta-feira (16 de novembro de 2007)
Lohorinwala – Multan (132 km)

Acordei cedo, hoje não poderia perder muito tempo caso quisesse pedalar uma longa distância. Arrumei tudo rapidamente e logo já estava pronto para a estrada, mas esperei o café da manhã e depois esperei todos da casa virem se despedir de mim, eu tive que esperar os que chegariam na casa para se despedir de mim. Quando já era 9:30 da manhã e eu via que já teria problemas para chegar em Multan durante o dia e decidi ir embora e não esperar mais ninguém.

A manhã estava fria e com uma névoa que não me deixava ver mais do que 10 metrso à minha frente. Precisava contar com minha audição agora. Por algum tempo foram meus ouvidos que me guiaram, mas conforme o sol se levantava, a neblina também ia embora e a temperatura se elevava.

Durante toda a manhã eu não me sentia disposto à pedalar e já previa que eu não conseguiria chegar em Multan hoje, tendo que parar no meio do caminho para continuar a viagem amanhã. Assim, parei algumas vezes para comer e beber e por fim cheguei em uma cidade chamada Khanewal, a qual ficava a apenas 40 quilômetros de Multan. Sabia que qualquer hotel da cidade seria uma porcaria e a melhor opção seria acampar.

Até entrei num hotel para ver as condições e percebi que não eram nada boas. Assim, decidi acampar num gramado de algum posto de gasolina pela estrada. Quando eu encontrei um posto de gasolina razoável, lembrei que eu não tinha comida, não havia nenhuma restaurante por perto e o posto de gasolina não contava nem com água para eu tomar banho de caneca.

O sol estava se pondo e eu percebi que mesmo que eu quisesse eu não conseguiria dormir na barulhenta lateral da estrada. Assim, tomei a decisão de pedalar nem que fosse um pouco durante a noite, mas de chegar em Multan e descansar por um dia na cidade. Subi na bicicleta, coloquei a uma lanterna em minha cabeça e outra na traseira da bicicleta, agora estava pronto para encarar a noite.

Tive luz por mais cerca de 10 quilômetros e depois já era plena noite. Continuei em frente dentro da noite, do frio e da neblina que fazia. Pedalar à noite não é das atividades mais agradáveis de se fazer, ainda mais numa estrada movimentada e num país como o Paquistão. O problema que surgia era a fome, pois eu não tinha comida e a última refeição que havia feito havia sido no café da manhã.

Agora já estava cansado, com fome, com frio e no escuro, mas de uma forma incrível, completamente calmo e tranqüilo, tão tranqüilo que até parei no acostamento 10 quilômetros antes de Multan para comer algumas bolachas que eu lembrei que tinha. Comi traqüilamente as bolachas e depois abri uma folha de papel para descobrir onde eu poderia ir em Multan e onde encontrar um hotel.

No que eu procurava, um sujeito se aproximou de mim para perguntar se estava tudo bem e se eu precisava de ajuda. Disse que estava tudo bem e que eu não precisava de nada a não ser a indicação de um hotel razoável na cidade. O sujeito disse que não sabia me indicar, mas disse que morava perto dalí e que eu poderia dormir na casa dele se eu quisesse. Ele estava de carro com sua família. Achei que não teria problemas e aceitei o convite.

Segui o carro por uma curta distância e cheguei até o vilarejo onde ele morava. No entanto, ele não era um simples morador do local, mas ele era o dono de toda a vila. Sua casa, uma espécie de mansão, ficava no centro dessa aldeia e ele tinha alguns funcionários que trabalhavam para ele, o que é raro por aqui. Logo ao chegar alí ele me deu um quarto, me mostrou o banheiro e disse que em poucos minutos o jantar estaria pronto.

Logo o jantar estava na mesa e eu tive a oportunidade de comer algo que não era bem paquistanês, uma pizza e queijo. Comi muito, como fazia tempo que eu não comia e depois fui para o quarto para uma merecida noite de sono.

Sábado (17 de novembro de 2007)
Multan


Como era sábado toda a família estava na casa, o pai, a mãe e os 3 filhos. Tomamos café da manhã juntos e depois eles foram me mostrar a vila deles, do galinheiro no fundo da casa até a fábrica de blocos e os grande terrenos para o plantio de cana-de-açúcar. Quando eu já havia visto tudo disse que iria até a cidade (Multan) para fazer algumas coisas e ver alguns dos templos da cidade.

Apesar de toda a hospitalidade da família eu não sei dizer até que ponto eles estava felizes em me receber alí. Eu sentia que eles estavam fazendo uma obrigação de me receber na casa deles, especialmente pela mãe da família que era falsa e dissimulava suas atitudes a todo o momento tentando parecer simpática. O pai da da família desde que eu havia dito que não era muçulmano já não fazia questão alguma de conversar comigo. Assim, passar o dia em Multan seria uma ótima saída para hoje.

A idéia do passeio em Multan não foi muito longe. Com alguns argumentos sem pé nem cabeça a família resolveu me levar para conhecer Multan. O passeio programado pela família não me mostrou muito da cidade, com exceção do parque, de um mausoléu e dos lugares que eles queriam ir. Após o passeio voltamos para a casa da família e teve início o momento mais emocionante do dia.

Um dos filhos da família me perguntou o que eu levava para a minha proteção. Mostrei para ele minha perigosíssima faca de menos de 10 centímetros e disse que acreditava em Deus (apesar de não ser fanático por nenhuma religião). Pensei que como bons muçulmanos, que parecem fazer tudo para Allah, eles iriam concordar. Estava enganado. Eles disseram que eu tinha que me proteger melhor, pois estava passando por longares perigosos, e começaram a mostrar a coleção de armas que eles tinham.

Começaram com uma simples espingarda de chumbo, com a qual eles brincavam dentro da casa para o meu espanto. Depois passaram para algumas carabinas e chegaram a uma escopeta e um cinto de cartuchos digno de Silvester Stallone. Passei a notar o quanto os filhos da família eram obcecados em armas. Mesmo após o show das armas eles chegaram com fotos dos melhores momentos da família. Os garotos ainda bebês, a primeira bicicleta, a primeira arma e a primeira experiência com uma metralhadora automática. (eita...)

Depois de tudo isso, eu apenas resolvi ficar sozinho um pouco e arrumar todas minhas coisas para deixar a cidade na manhã de amanhã.

Domingo (18 de novembro de 2007)
Multan – Bahawalpur (103 km)


Pela manhã eu já tinha tudo pronto para deixar a cidade. Havia arrumado minhas malas, me alongado e até passado o protetor solar, mas descobri que seria uma grande falta de educação ir embora sem tomar um café da manhã com a família. Não me sentia muito bem em relação ao estômago, mas mesmo assim sabia que teria que comer para poder conseguir pedalar uma distância de cerca de 100 quilômetros.

Após o refeição eu me despedi de todos e segui em frente, sabendo que teria muito que pedalar hoje. No entanto, antes de começar a pedalar para valer eu tive que procurar um banheiro na estrada. As estradas por aqui nem sempre possibilitam a improvisação de um banheiro devido ao grande número de pessoas que existe por toda a parte, assim tive que parar num posto de gasolina e pedir para usar o banheiro.

Depois de me aliviar emergencialmente eu sabia que estava pronto para pedalar. Com o ar parado e diversos caminhões me ajudando com o movimento de ar que geravam eu tive um empurrão extra hoje, conseguindo desenvolver uma velocidade média acima do comum. Quase não parei pelo caminho e mesmo saindo mais tarde do que eu esperava de Multan, eu consegui chegar cedo em Bahawalpur, onde logo encontrei um lugar barato para passar a noite e depois saí para comer uma boa refeição, para curar meu estômago e encerrar esta semana de boas pedaladas e algumas surpresas.


=) amooooooo
mas parece que essa parte foi meio dark! Dá pra sentir a desaminada dele.

Thursday, 20 November 2008

Diarreia e comidas


Ha quatro dias que o banheiro me chama...
Diarreia eh comum pra mim aqui, desde a primeira vez que eu tinha vindo por Pak uns reverterios tinham me assombrado(perdi 5 kilos de vez). Uma diarreia aqui outra la eh normal, ate acho bom ( num sou loka) dar uma limpada por dentro, mas 6 limpezas diarias me deixam com dor na bunda heehhehehe..

Qual o motivo? -> pimenta? talvez... problemas no estomago?(tenho gastrite).. alguma comida ruim?..bacteria? virose? Sei la... talvez tudo isso misturado
Mas confesso que a comida aqui so tem um gosto: PIMENTA
pra que tanta pimenta????? um saborzinho ate vai... mas o frango tem gosto de pimenta, o arroz tb e assim vai
eu nem entendo de pimenta mas acho q vou esudar hehehe,
queimaaaaaa minha boca... e desce rasgando.. imagina como sae ops...
auhauauhahauahauhauhauhauha
isso pq todos os lugares que eu vou peco sem pimenta por favor, mas mtas vezes me acabo de tanto tomar agua, suco, tacar Iogurte nas comidas

Na primeira vez que fui tomar cafe da manha aqui um susto: um pao paratha, ovo frito com gema mole cheio de pimenta do reino, cha preto com leite... pensei isso naum vai prestar, tirando a pimenta eh otimo! eh mto gostoso mas tive q me acostumar com esse cafe da manha, pq parecia que ate o cha tinha pimenta... PRA QUE COLOCAR PIMENTA EM TUDO???
Gosto de comida temperaada o que eh totalmente diferente. Gosto de sentir o sabor das coisas, como o feijaooo gostosoooo da minha vooooooooo ummmmmmmmmmmm que saudadessssssssssssssssssssssssssssssssssssssssss
hum que fome.. mas ai eu como... e saio correndo para o n#2.. ops
fuiiiiiiiiiiiiiiii ahhhhhh

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